sexta-feira, 4 de novembro de 2016

É hora de enfrentamento e resistência

 por Djamila Ribeiro*
 
Com o golpe, os grupos historicamente discriminados serão vistos pela ótica do descaso. Não há negociação possível com o governo ilegítimo

Algumas ações do governo interino já sinalizavam retrocessos no campo dos direitos humanos e no que diz respeito a avanços obtidos nos últimos anos para grupos historicamente discriminados.
Independente das críticas que se podem ter ao governo da presidenta Dilma, estamos assistindo a um golpe com cunho machista e misógino. É assustador saber que reivindicações históricas das mulheres seguirão sem visibilidade, e os poucos avanços obtidos cortados.

É necessário perceber a impossibilidade de se dialogar com o governo do golpe. São perspectivas radicalmente diferentes. Se, com todas as falhas do governo Dilma, existiram conquistas para a população negra, como a lei de cotas para o serviço público federal, no governo interino a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial sequer existe mais. Onde antes se dialogava e pensava medidas de inclusão, agora será a perspectiva da aniquilação, da desimportância.

As ações serão no sentido de manter os lugares construídos por uma sociedade machista e racista. Mulheres podendo ser até belas, recatadas e do lar, mas não agentes de mudança e ocupando espaços de poder. Da população negra limpando, mas não sentando nos banco da universidade. Da manutenção das mulheres negras dentro de uma lógica escravista. É como se eles dissessem: “vocês já viram demais”.

Obviamente que ainda existia muito a ser feito pelo governo eleito democraticamente. Mudanças e um olhar mais progressista também se faziam necessários. Mas a luta deve ser pela ampliação dos direitos, e não pela redução. Havia ali a possibilidade da crítica, de apontar os limites, da pressão para um caminho que atendesse as demandas dos movimentos sociais. Ao menos podíamos existir como sujeitos do contraponto.

Após a efetivação do golpe, não nos resta opção a não ser o enfrentamento. Os grupos historicamente discriminados serão vistos pela ótica do descaso. Já sabemos o que esperar. A ação deve ser no sentido da não negociação com a ilegitimidade e do repúdio ao aviltamento a nossa humanidade. Este texto foi publicado originalmente na revista Carta Capital

*Djamila Ribeiro é pesquisadora na área de Filosofia Política e feminista. É secretária-adjunta da Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo
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