segunda-feira, 22 de maio de 2017

A poesia segundo Fernando Abreu



estrela

mudei dali vai fazer um ano
e agora quase não a vejo mais
discreto milagre elétrico que acende a noite
na torre da igrejinha católica perto da padaria
é um alívio saber que ela continua lá
com sua fraca luz azulada
assombrando a penumbra perene
brilhando para os cachorros abandonados
para as garotas voltando da aula noturna
depois de um dia inteiro nas galés domésticas
para os casais conversando em voz baixa
para os crentes de bíblia na mão e pecado na cabeça
para os zumbis de crack amontoados na calçada
partilhando sua ceia de álcool barato
esta noite ela se acendeu mais uma vez
não tocou o coração da usura
não alterou o humor do mercado
nem ofuscou a fama do famoso
foi quase um pedido de desculpas
por fazer tão pouco
para manter o mundo de pé.


Fernando Abreu é um poeta, letrista e escritor maranhense. Tem quatro livros de poemas publicados, sendo o mais recente Manual de Pintura Rupestre (7 Letras, 2015). Antes vieram Aliado Involuntário (Exodus, 2011), O Umbigo do Mudo (Clara Editora, 2003) e Relatos do Escambau (Exodus, 1998). Como letrista, tem parcerias com Zeca Baleiro, Chico César, Marcos Magah e Nosly, entre outros.
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