terça-feira, 2 de maio de 2017

A poesia segundo José Chagas


[ALCÂNTARA]

Quem toca a pele
desse silêncio
sente nos dedos o vibrar
dos fatos
no acumular dos dias
formando séculos
em seu tecido de sombras
que costuram a face
do eterno

Que fere a pele desse silêncio
vê que o passado está ao alcance
das mãos
mas é impossível apanhá-lo
como se apanha um fruto
como se colhe uma flor
ou como se retém uma água
que se bebesse
ou nos batizasse
lavando os nossos nomes
para que pudessem ser ditos
na pureza dos ventos
ou dos passados conventos


Não se pode ver Alcântara
a olho nu

Alcântara requer
uma lente memorial
para ampliar
o que se contempla para trás
ou por detrás de nossas ruínas
humanas

ou para além do nosso esquecimento
através dos muros
endurecidos
dos séculos

O olho comum
é cego

          que olho sem memória
          não avista senão
          a forma ilusória
          da própria visão

          O olho comum
          não avista nada
          além do debrum
          da coisa visada



A noite sobre Alcântara é mais densa
que qualquer noite de qualquer cidade
e as horas passam sem pedir licença
para o que nos encante ou desagrade

O tempo em seu eterno se condensa
e a escuridão não sabe o quanto dá de
seu mistério para a recompensa
de uma idade parada noutra idade

É que a noite de Alcântara incorpora
o que ficou de uma apagada aurora
cujo sol não se acende nunca mais

E Alcântara de noite sonha medo
o medo que ela tem de acordar cedo
todos os seus fantasmas ancestrais.


José Chagas foi um poeta paraibano, nascido no município de Piancó (PB), mas com inspiração maranhense.
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