sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Olhos nos meus olhos (meus), por Silvana Dauilibe

Por Silvana Duailibe

Isolamento, privação, abandono, carência... Eis algumas variações que, no dicionário, definem a palavra “solidão”. São termos assombrados, que induzem ao medo. A criança teme ficar só, o velho também. A mulher e o homem, em diferentes níveis e aspectos, associam solidão a rejeição.
Na verdade, esse é um estado d’alma que oferece um vasto leque de conceitos nem sempre tão assustadores. É claro que o mais popular é o da ausência de afeto. Na música, principalmente, solidão rima sempre com dor e desamor.
Há, no entanto, um significado muito mais sutil para o estado de solidão, que independe da presença ou da ausência de outrem e permanece à nossa revelia. É a solidão que nasce com a gente, cresce com a gente e não nos deixa jamais. É a solidão atávica do ser e da qual é impossível fugir.
Muitas vezes negada, a solidão-essência nos apavora e contra ela lançamos mão de inúmeros mecanismos de defesa: cercar-se de gente o tempo todo, afogar-se em trabalho, comer compulsivamente, dormir feito um urso que hiberna... São escapes do tipo placebo, ou seja, que nada resolvem, apenas camuflam uma circunstância de vida imutável. O poeta Rainer Maria Rilke descreveu a solidão como uma chuva, que, após cair no leito dos rios, evapora e volta à forma de chuva, num ciclo interminável, deixando-nos como única alternativa aceitar e seguir em frente. Inevitável e madura solidão!
Saudável seria aprendermos a nos cercar de nós mesmos e a tomar porres de amor próprio e de auto conhecimento (“Ouse conquistar a si mesmo.”- Nietzche). Não é fácil, muito menos rápido, porém eu não conheço melhor antídoto do que esse para a desilusão. É a velha história: creditamos no outro todos os nossos ideais de vida e ficamos na expectativa do retorno. O outro, por sua vez, também vive as suas próprias expectativas; conseqüentemente, dessa ciranda viciosa deve-se esperar muito pouco.
Viver junto pode ser viver só e vice-versa, tudo depende do grau de aceite da nossa condição existencial e da parceria estabelecida com os outros em volta. Conheço gente que mora sozinha, mas estampa um tranqüilo sorriso no rosto, porque há troca, há comunicação e trânsito de pessoas em sua vida. Ainda assim, no entanto, as dores e os anseios de cada um podem apenas ser partilhados, mas nunca plenamente vividos e assimilados pelo outro, seja este pai, filho, irmão, amante ou amigo.
Quando eu era criança, lembro de uma brincadeira que eu inventei e que praticava sempre que ficava sozinha. Eu me concentrava e conseguia sair de mim, de maneira que me via de fora, como se fosse outra pessoa. Naquela dimensão, eu me percebia como unidade, vislumbrava a minha solidão e me sentia invadir por um sentimento de estranheza e insegurança a princípio, mas que ia se transformando em conforto e aconchego, aos poucos, como se eu me recolhesse em um casulo todo meu. Eu não sabia, mas me construía.
Nunca tive problemas em ficar sozinha em casa, viajar sozinha ou sair para jantar sozinha, apesar de preferir fazer essas coisas em boa companhia.  Sobretudo, treinei em mim, desde muito cedo, a capacidade de dialogar comigo mesma antes de interagir com as outras pessoas, o que tem demonstrado ser uma prática facilitadora do meu diálogo com o mundo.
Penso que aceitar a solidão como condição só oferece um risco – a auto suficiência exagerada, que exclui o outro, limitando o desenvolvimento. Ao mesmo tempo, estar no meio de pessoas só tem significado e valor se partir de uma livre decisão. O contrário escraviza. 
É imperiosa a conquista de espaços que permitam a nossa expansão e expressão. Cria-se em solidão, decide-se em solidão, medita-se em solidão. Alguns sussurros, murmúrios e até gritos também só podem ser ouvidos em total solidão. Ela inspira, esclarece, acalma e liberta.
Fonte: Alexpalhano.com.br

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