Por Silvana Duailibe
Isolamento, privação, abandono, carência... Eis algumas variações
que, no dicionário, definem a palavra “solidão”. São termos assombrados, que
induzem ao medo. A criança teme ficar só, o velho também. A mulher e o homem,
em diferentes níveis e aspectos, associam solidão a rejeição.
Na verdade, esse é um estado d’alma que oferece um vasto leque de
conceitos nem sempre tão assustadores. É claro que o mais popular é o da
ausência de afeto. Na música, principalmente, solidão rima sempre com dor e
desamor.
Há, no entanto, um significado muito mais sutil para o estado de
solidão, que independe da presença ou da ausência de outrem e permanece à nossa
revelia. É a solidão que nasce com a gente, cresce com a gente e não nos deixa
jamais. É a solidão atávica do ser e da qual é impossível fugir.
Muitas vezes negada, a solidão-essência nos apavora e contra ela
lançamos mão de inúmeros mecanismos de defesa: cercar-se de gente o tempo todo,
afogar-se em trabalho, comer compulsivamente, dormir feito um urso que
hiberna... São escapes do tipo placebo, ou seja, que nada resolvem, apenas
camuflam uma circunstância de vida imutável. O poeta Rainer Maria Rilke
descreveu a solidão como uma chuva, que, após cair no leito dos rios, evapora e
volta à forma de chuva, num ciclo interminável, deixando-nos como única
alternativa aceitar e seguir em frente. Inevitável e madura solidão!
Saudável seria aprendermos a nos cercar de nós mesmos e a tomar
porres de amor próprio e de auto conhecimento (“Ouse conquistar a si mesmo.”-
Nietzche). Não é fácil, muito menos rápido, porém eu não conheço melhor
antídoto do que esse para a desilusão. É a velha história: creditamos no outro
todos os nossos ideais de vida e ficamos na expectativa do retorno. O outro,
por sua vez, também vive as suas próprias expectativas; conseqüentemente, dessa
ciranda viciosa deve-se esperar muito pouco.
Viver junto pode ser viver só e vice-versa, tudo depende do grau
de aceite da nossa condição existencial e da parceria estabelecida com os
outros em volta. Conheço gente que mora sozinha, mas estampa um tranqüilo
sorriso no rosto, porque há troca, há comunicação e trânsito de pessoas em sua
vida. Ainda assim, no entanto, as dores e os anseios de cada um podem apenas
ser partilhados, mas nunca plenamente vividos e assimilados pelo outro, seja
este pai, filho, irmão, amante ou amigo.
Quando eu era criança, lembro de uma brincadeira que eu inventei e
que praticava sempre que ficava sozinha. Eu me concentrava e conseguia sair de
mim, de maneira que me via de fora, como se fosse outra pessoa. Naquela
dimensão, eu me percebia como unidade, vislumbrava a minha solidão e me sentia
invadir por um sentimento de estranheza e insegurança a princípio, mas que ia
se transformando em conforto e aconchego, aos poucos, como se eu me recolhesse em
um casulo todo meu. Eu não sabia, mas me construía.
Nunca tive problemas em ficar sozinha em casa, viajar sozinha ou
sair para jantar sozinha, apesar de preferir fazer essas coisas em boa
companhia. Sobretudo, treinei em mim, desde muito cedo, a capacidade de
dialogar comigo mesma antes de interagir com as outras pessoas, o que tem
demonstrado ser uma prática facilitadora do meu diálogo com o mundo.
Penso que aceitar a solidão como condição só oferece um risco – a
auto suficiência exagerada, que exclui o outro, limitando o desenvolvimento. Ao
mesmo tempo, estar no meio de pessoas só tem significado e valor se partir de
uma livre decisão. O contrário escraviza.
É imperiosa a conquista de espaços que permitam a nossa expansão e
expressão. Cria-se em solidão, decide-se em solidão, medita-se em solidão.
Alguns sussurros, murmúrios e até gritos também só podem ser ouvidos em total
solidão. Ela inspira, esclarece, acalma e liberta.
Fonte: Alexpalhano.com.br
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