“O
capitalismo assim como a bicicleta, quando pára cai, se desarranja e entra em
colapso. Dai ser vital a esse sistema o crescimento constante da população”
(Dom Severino)
«A grande questão política do
nosso tempo — como confirmam as controversas decisões do Governo francês e a polêmica
na Alemanha por causa das declarações de Sarrazin — é de natureza eminentemente
biopolítica e diz respeito aos emigrantes e à demografia. Não há nada mais
ideológico do que o modo como o declínio demográfico é entendido. Do ponto de
vista ecológico, a diminuição da população devia ser vista como um dado
positivo, sendo negativos apenas os desequilíbrios na sua distribuição. Mas um
sistema baseado no crescimento permanente, como é o sistema capitalista, não é
compatível com o emagrecimento demográfico. Se a vida de todos nós se alimenta
de um endividamento que vai sendo transportado para o futuro (de modo que cada
vez é maior a fatia de futuro hipotecado), se não houver no futuro mais gente
para pagar a dívida, o sistema colapsa.
Marx, que desprezava abertamente
Malthus, mostrou como a questão da superpopulação emergiu “de um modo que não
encontramos em nenhum outro período anterior da humanidade”, isto é, de um modo
coerente com “o grande papel histórico do capital”. A que papel histórico se
refere Marx? Digamos, em síntese: o de criar
trabalho excedente. Trabalho excedente
e população excedente estão numa relação de dependência e ambos são um produto
necessário da acumulação capitalista. Mais do que isso: é a sua própria
condição de existência. Atualmente, esta condição entrou numa fase que
engendrou o metatrabalho, bem conhecido de muitos “trabalhos precários” (a precariazação,
esse novo sujeito da História...). Trata-se do trabalho não remunerado a que
muitos se sujeitam, na esperança de arranjar trabalho, as formas de trabalho
para arranjar trabalho. É, em suma, uma forma de contrair uma dívida cuja única
garantia de pagamento é o próprio tempo de vida do indivíduo.»
Antônio Guerreiro, «Ao pé da letra»
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