quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Fátima Oliveira: "Bebês de Proveta"

FÁTIMA OLIVEIRA
Médica
fatimaoliveira@ig.com.br


O desejo de ter filhos e o de não tê-los se equivalem. Para uma mulher diante de uma gravidez indesejada ou inesperada que decide não levá-la adiante não importam leis restritivas e/ou punitivas e nem o "pecado". Ela procurará abortar. Ao desejar engravidar, tendo dificuldade, busca uma clínica de "bebê de proveta". Há a crença de que as Novas Tecnologias Reprodutivas conceptivas (NTRc) "tratam" a infertilidade, seja qual for a causa; e que são seguras e inócuas. O que não corresponde à verdade.

Buscar um filho "a qualquer preço" contém riscos para a saúde e a vida, da mãe e do concepto. Em muitos casos é possível contemplar o desejo quando há impossibilidade biológica de ter filhos, via "bebê de proveta" - práticas medicalizadas de "última geração", ainda experimentais, repletas de conflitos científicos, sociais, jurídicos, políticos e éticos com questões bioéticas diversas.

Os óctuplos de Nadya Suleman (26.01.2009) estão dando o que falar. A American Society of Reproductive Medicine disse que, "apesar de a imprensa ter abordado o nascimento dos óctuplos como um evento feliz, a quantidade de recém-nascidos nunca deveria ser considerada um êxito médico. É uma irresponsabilidade implantar tantos embriões em uma mulher jovem e com filhos. Conforme normas publicadas há dez anos, uma mulher dessa idade não deveria ser fecundada com mais de dois embriões".

Em 2008, a sociedade, considerando a tendência mundial de diminuir o número de embriões transferidos, adotou diretrizes para "encorajar a transferência de apenas um embrião em mulheres de menos de 35 anos; e não mais de dois, exceto sob circunstâncias extraordinárias. Em mulheres mais velhas, um máximo de cinco. Devido ao risco de nascimentos múltiplos, o mais saudável é implantar apenas um embrião, mesmo sabendo que o processo talvez seja repetido".

O Conselho Médico da Califórnia investiga o dr. Michael Kamrava, médico de Nadya, por violação de normas aceitáveis da medicina - os padrões de cuidados em fertilização in vitro. Diferentemente de muitos países que possuem leis sobre o assunto, nos Estados Unidos a coisa corre bem mais frouxa. Há apenas um sistema de coleta de dados das clínicas pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças; aquelas, não são obrigadas à prestação de contas. Em 2006, só 11% dos procedimentos in vitro nos EUA foram de embriões únicos. As estatísticas do dr. Michael Kamrava, em 2006, são alarmantes, pois a média de embriões implantados em jovens foi de 3,5 ante a média nacional de 2,3.

Para o dr. Márcio Coslovsky, da Clínica de Medicina Reprodutiva Huntington, na Califórnia, "as gestações múltiplas são um risco para a mãe - que pode tornar-se hipertensa, diabética ou mesmo ter uma ruptura de útero - e para os bebês, que nascem com baixo peso; exigem mais cuidados neonatais; e podem ter algum tipo de retardamento, além de deficiências auditivas e visuais, pois a prematuridade extrema é ligada a sequelas".

O bioeticista Arthur L. Caplan, da Universidade da Pensilvânia, ao constatar que Nadya possuía seis filhos, disse: "Eu acho uma falha ética enorme que ela tenha sido aceita como paciente". Daniel Potter, da Huntington, declarou que "o ônus é do médico, não importa o que deseje a paciente", pois, "se alguém quer transferir seis embriões e a situação não justifica, o médico tem a obrigação de proteger a paciente e não permitir que ela aja de modo insensato".

A Dra. Fátima Oliveira - é maranhense

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