domingo, 9 de maio de 2010

Semana Luís Augusto Cassas

CRÔNICA DE NOMEAÇÃO DA DEFENSORIA LÍRICA DA CIDADE

por graça e gosto de el-rei

e espada de bom capitão

por instrução do prior-frei

segredos do coração

e por tudo que oro e sei

moinhos de ventos e brasão

consagro em pública praça

do herói a rebelião

e nomeio fiel protetor

das pedras do nosso chão

a luís Augusto cassas

defensor perpétuo e lírico

de São luís do Maranhão

em nome do sol e mar

dou a ele força e poder

de lapidar e guardar

a vida que há de florescer

expeça-se alvará

salvas de mudo canhão

província de muito amar

firmo: “cais da sagração”


MAR DEPRIMIDO


mar de São Luis, constrangido,

que banhas as costas do Atlântico

e as costas e seios das pacíficas,

quem te roubou o azul do paraíso:

os vendedores de cloro das piscinas

ou o céu desbotado do olhar das meninas?

mar de São Luis, humilhado,

saqueado por metralhas e conquistadores

em navios que vazam óleo desde o início,

quem roubou o azul do teu sorriso:

os poetas que te deixaram abandonado

ou os petroleiros que te sujaram o vestido?

mar de São Luís, sucateado,

sobra de outros mares, poluído.

o cinzento de tuas águas

é tua bandeira de mágoas?

é o teu vestido e anágua?

choras por Antonio: o de Cleópatra?

choras por outro: o de Ana Amélia.

mar de São Luís, enrubescido,

derramas lágrimas de crocodilo,

deságuas sujas águas em praias e portos.

enches os tonéis, os lenços, os esgotos.

mar de São Luis, emaranhado

em maranhas de mar amargurados,

quem seqüestrou o teu azul-coral

deixou-te em troca o excesso de sal.

entanto, o verde que antevejo nessa manhã,

só o vislumbro detrás de óculos rayban.

a não ser que eu ponha cloro,

nas lágrimas que, em ti, choro.


Os Arautos do Dia

edital de tombamento

(escrito em papel embrulho)


Ficam declarados tombados

pra todos os efeitos e dados

os herói anônimos e martirizados:

os paralelepípedos sob o asfalto

& a cobertura de cobalto

o sorvete de ameixa do hotel central

& as sessões coloridas no cine-rival

as sabiás de cócoras

& os bem-te-vis de galochas

a coroa de rei dos homens

& a galinhagem de ana jansen

a caldeirada do germano

& os endereços dos pés-de-pano

os vendedores de pirulito

& os jogadores de palito

os anjinhos despirocados

& os poetas emprenhados pelos ouvidos

os quebra-queixos à mingua

& o teu beijo de língua

o doce de bacuri com cravinho

& o pôr-do-sol do portinho

as meninas da rua 28

& as virgens mortas sem coito

(a esses 20 tiros de canhão

e 30 missas em intenção)

e mais ainda: a saudade etérea

do amor de g. dias & ana amélia

O pintor de cartazes do cine-éden

faça repintar e imprimir e correr

a nova aurora que vai nascer


Luís Augusto Cassas - Nasceu e mora em São Luis do Maranhão desde 2 de março de 1953. Publicou muitos livros de poesia, sempre bem recebidos pela crítica. É autor de diversos livros, entre eles, Deus Mix: salmos energéticos c/ guaraná & cassis -2001; Bhagavad-Brita (a canção do beco) - 1999; Ópera Barroca: (guia erótico-poético & serpentário-lírico da cidade de São Luís do Maranhão) – 1998, e Em nome do filho (advento de aquário) - 2003. Este último, narrando o apocalipse da infância de sua cidade natal e completando o seu rol poético, ou seja, o seu décimo segundo livro.

Sobre o livro, “O vampiro da Praia Grande”, assim se manifesta o dramaturgo Luiz Horácio Rodrigues: “ O Vampiro da Praia Grande , a mais recente e lúcida loucura do poeta Luis Augusto Cassas, permite ao leitor o risco de vasculhar a mente do seu criador, estará então o leitor apto a fazer a síntese tão própria deste poeta impróprio para acomodados.

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