domingo, 17 de fevereiro de 2013

Corte: uma cronicazinha sobre o assassinato de árvores

Rogério Newton*
Ao sair hoje, cedinho, para caminhar, fui tomado de assalto. Não, leitor, ninguém me apontou uma arma, levou minha carteira e saiu de fininho ou correndo. Nada disso. Mas pode ser que tenha ocorrido um delito, ou vários. Não quero sair com o dedo em riste. Deixo ao leitor essa tarefa, se ele quiser. O que vou fazer é apenas descrever meu susto, rente ao muro, na Avenida Homero, deserta, ao perceber que um pé de angico branco do IBAMA, não estava mais ali.

Como é que pode? Ainda ontem foi um ser vivo. Alto, forte, bonito, os galhos se espalhando. Agora não há mais nada, a não ser o vazio e pedaços do tronco, que jazem do outro lado do muro, à espera do caminhão que os levará para o aterro ou o lixo. Vi-os pelas brechas do portão, deitados sobre a terra. Foi o que pude fazer, na manhã clandestina, nova e desamparada.


Há poucos metros dali, no mesmo terreno, do lado da Rua Cel. Costa Araújo, outra árvore cortada. O que sobrou do tronco, desnudo, apontava para cima, as raízes ainda fincadas no chão, galhos e folhas na calçada, onde outras árvores foram podadas. Por enquanto, um aviso de que as próximas serão elas. Perguntei a mim mesmo: foram cortadas porque ameaçavam o muro? O IBAMA vai construir e precisa de mais espaço? Para desenvolver seus elevados misteres, não pode competir com árvores altas?


Não sei se o diretor gosta de árvores. Não o conheço. Não sei seu nome. Não sei se vai plantar outras. Não sei quando vai mandar derrubar as que restam dentro do terreno sob sua jurisdição. A única coisa que sei é que fiquei triste. 

*Rogério Newton - é um poeta, escritor  e defensor público estadual piauiense.  

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