por Rogério Newton*
Sábado de manhã, bem cedo, fui à Av.
Raul Lopes. Quando cheguei, vi um automóvel virado. Barracas e tendas sendo
armadas e mulheres com olhos insones guardando lugar. Então lembrei: hoje é dia
do corso. Desci à calçada e fui caminhar nas trilhas entre árvores, na margem
do rio. Ao ouvir o canto dos pássaros e um som que lembrava cachoeira, pensei:
lugar mágico. Mas somente por segundos: a cascata era a boca de um esgoto na
margem oposta e o canto do passarinho parecia não se importar com o mau cheiro
de outro canal despejando detritos aos meus pés.
Caminhando ainda um pouco mais,
deparei lindas árvores e, em muitos lugares, lixo descartável: preservativos,
copos, papéis, latinhas de cerveja, restos de sacolas plásticas. Um babaçu,
enorme e vertical, procurava o céu entre os galhos de uma mangueira de tronco
formidável. Lugar bonito, agradável, não fosse à sujeira e o mau cheiro. Aí
comparei: a avenida está sempre limpa, mas não os espaços entre as árvores, no
pequeno bosque marginal ao rio. O calçadão nunca deixa de receber pessoas. As
trilhas de terra, que as árvores ensombram, raramente acolhem um caminhante.
Melhor andar no calçadão, mais civilizado, mais seguro.
De noite, fui ver o desfile, meu
filho e eu. Encontramos muitos carros na Nossa Senhora de Fátima e muita gente
fantasiada, com copos na mão. Seguimos a troça pela Petrônio Portella e rimos a
valer de tantas coisas engraçadas e bizarras. Na Raul Lopes, a multidão
frenética, mas nem tanto: muitos só passeavam e bebiam. Perto da ponte
estaiada, quase não dava pra passar, de tanta gente. Os foliões se animavam
mais na passagem frente às câmaras de TV. Subimos a ponte, cheia de automóveis,
seres humanos e motocicletas. Ver a multidão lá de cima foi um espetáculo
impactante, misto de alegria e mixórdia.
Voltamos para casa, pela Dom
Severino. Entramos na Ininga e, ao passarmos frente ao edifício onde mora o
poeta, resolvemos tocar a campainha. Ele demorou, mas veio nos receber.
Importunamos seu sossego com nossa excitação controlada, nossas notícias
quentes de humores e suores. A conversa foi animada e cheia de risos. Descemos
pelo elevador. Ao chegarmos à rua, topamos um bêbado a nos pedir carona.
Explicamos que andávamos a pé. Ele nos acompanhou, loquaz. Apressou-se a nos
tranquilizar: era preto e pobre, mas não marginal; gostava de caninha e, vez em
quando, fumava e cheirava. Ao dobrarmos no Hospital São Paulo, prosseguiu com
seu texto e andar cambaleantes, a garrafa no bolso traseiro da bermuda.
Na manhã seguinte, de bicicleta, regressei à
Raul Lopes. O pessoal da Limpeza Pública já havia varrido tudo, de madrugada.
Só um carro pipa despejava água no asfalto. A não ser pela presença dos sacos
de lixo, da solidão de tendas fechadas, de pequenos vendedores de bebida e
espetinho que se preparavam para ir embora, e de certo peso no ar, quase nada lembrava
o carnaval. O rio não mudou o seu curso e continua a receber, de águas abertas,
o que se joga debaixo do tapete da avenida.
O teresinense pode bater nos peitos:
temos o maior corso carnavalesco do mundo. Sem esse
título, muita cachaça e cavalares doses de ilusão, ninguém segura esse rojão.
*Rogério
Newton é poeta, escritor, crítico literário e defensor público estadual, piauiense
nascido em Oeiras, a primeira capital do estado do Piauí.
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