quinta-feira, 8 de março de 2018

A poesia segundo Arlete Nogueira da Cruz



Litania da Velha
(fragmento) 



O tempo consome o silêncio e mastiga vagaroso a feroz injustiça.
O campo se perde embebido em jenipapos para a manhã sufocada.

Os bois da infância ruminam sua paciência e espreitam essa audácia.
— O tempo dói na ferida aberta da recordação.

A velha cata os pertences no quarto que exibe a sua miséria.
A sacola esconde improvisos da vida e ganhos equivocados.

A rua se reserva precária aos passos vacilantes, entre lembranças.
A pobre mulher sai maltrapilha, sem pressa, carregando brio e saudade.

Convicção

Aqui, onde uma mulher se curva
e se inventa,
é onde de uma dor imensa e turva
se alimenta.

Aqui, quando tonta e avulsa
se procura,
é onde viva a luta lenta pulsa
e transfigura.

Aqui, onde o que é e será retorna
ao berço,
é onde busca âncora, estrela, bigorna
e terço.

Arlete Nogueira da Cruz (Machado) nasceu na estação ferroviária de Cantanhede, no interior do Maranhão, em 1936. Licenciada em filosofia pela Universidade Federal do Maranhão, cursou o mestrado em Filosofia Contemporânea na PUC/RJ, defendendo dissertação sobre Walter Benjamin. É professora aposentada da UFMA e exerceu também a docência na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, onde lecionou Filosofia Contemporânea.
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