quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

A poesia segundo Wislawa Szymborska

Coação

Comemos a vida de  outros para viver.
A finada costeleta como o finado repolho.
O cardápio é um necrológio.

Mesmo as melhores pessoas
precisam  morder, digerir algo morto,
para que seus corações sensíveis
não parem de bater.

Mesmo os peotas mais líricos.
Mesmo os ascetas mais severo
mastigam e engolem algo
que, afinal, ia crescendo.

Custa-me conciliar isso com os bons deuses.
Talvez crédulos,
talvez ingênuos,
deram à natureza todo o poder sobre o mundo.
E é ela, louca, que nos impõe a fome,
e ali, onde há fome
finda a inocência.

À fome se juntam logo os sentidos:
O paladar, o olfato, o tato e a visão,
pois não é indiferente quais iguarias
e em quase pratos.

Até a audição participa
No que sucede, pois à mesa
Não raro há conversas alegres.  

Wislawa Szymborska - foi uma poetisa polonesa.

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