terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

No Ser ou na Alegoria: onde está Oeiras?

 “Articular historicamente o passado (...) significa apoderar-se de uma lembrança tal como lampeja num momento de perigo” (Walter Benjamin)

Esse é um tema de grande relevância no contexto social do Estado, notadamente pela controvérsia política e econômica, frente às frustradas aspirações dos grupos preservacionistas, no resgate e valorização desse acervo histórico, tão decantado em prosa e verso e tão descartado das políticas oficiais, quanto surrado pela poesia colidente das coevas obras públicas.

Nossa herança cultural parece pedra-de-jacaré: sem forma determinada, nas cores da terra, refratária e absorvente. Marcada pelas oligarquias, se evidencia nas raízes fincadas nos lajedos e, como um dogma inusitado, germina nos porcelanatos, ruas e cidades designações de grupos dominantes, em substituição à pitoresca toponímia de origem. Produziu monumentos que se recusam a morrer e, com arrogância, livre e desimpedida de estima, cada vez mais se firma majestosa persuadindo os de-votos, como na homilia barroca de catequização dos nativos.

No cenário republicano, a trama com as especificidades históricas do Estado é tema recorrente pelas elites políticas. Não obstante, preservar não é uma ação de memorialista em gabinete e, no que a estima aos campos, às águas, às árias, à culinária, remeta a um sentimento de afeto à natureza, no imaginário social, alimentado de orgulho ostensivo, a exaltação ao progresso econômico é o pavilhão político e ecumênico, maior e pior expressão da piauiensidade que dita o fazer democrático. Nesse mastro vibram flâmulas da anti-educação e da miséria cultural.

Muito sabemos de fatos históricos difundidos pela literatura, consideravelmente articulada à genealogia brotada nesse território. Mas, como, onde ou estão as casas dessa gente? O que sabemos da arquitetura dos escravos, das moradias, da arquitetura religiosa, dos vaqueiros? Nossos estadistas sabem o que há por baixo da atual igreja de Brejo de Santo Inácio? E das ruínas de Brejo de São João? E das igrejas do Rosário dos Pretos? E das outras igrejas, das casas, dos currais, das estações ferroviárias? E nos campos santos? E do que se vê a olho nu em Oeiras, Jerumenha, Serra Negra... nos jardins do Karnak? Isso é o rés-do-chão da educação. Saber disso é um exercício de cidadania, que pressupõe a construção de um projeto em sólidas bases do saber. Renunciar tem um caráter delituoso.

A justificativa para esse tipo de obra pode encontrar amparo na ideologia política, mas não na essência das edificações do passado. Para isso, sem discussão, espontaneamente afloram recursos e divulgação na mídia. Para a fábrica de Campinas, para o Mocha, para as casas em arruinamento, para as fazendas tombadas, para a Floresta Fóssil do Poti...: “PIAUÍ TERRA QUERIDA”.

Concretamente, isso é a chancela do altruísmo institucional para com a preservação dos valores históricos. Todos, graduados ou analfabetos, que passam correndo pela cidade ou pelos dos caminhos do gado, percebem o estado de conservação do minguado acervo tutelado pelo Estado. Quando e com quem esse projeto foi tratado? Por que a inércia em consultar o IPHAN, a FUNDAC, os institutos históricos e geográficos e o Conselho Estadual de Cultura, instituições que merecem e que deveriam ser apoiadas e não difamadas? Qual sua premência frente às volumosas necessidades de obras de restauro e ambientação paisagística da cidade? E as emendas parlamentares? Pelo exposto, o valor da obra seria suficiente para restaurar, com dignidade e critérios técnicos, algumas edificações locais. Seria o caso do Minstério Público se posicionar.

No Piaui, o estado em que se encontra o acervo histórico e natural expressa, em nitidez telescópica, o descaso e a insensatez daqueles que determinam o destino de um lugar. Que cientista político, pesquisador ou turista viria a Oeiras, Campo Maior ou Teresina para apreciar essas parábolas de beira de estrada, desvios que mais se aproximam de estandartes de escola de samba, camuflando aquilo que mais significativo temos de raiz? Quantas e quais as obras de restauro os governos estadual e municipais fizeram nos últimos dez anos no Piauí? Quantas cidades daqui ainda não têm seu exuberante portal de entrada?

No que a potencialidade do sitio seja fato inquestionável de preservação, a apreensão e perda dos valores estéticos é repassada com lacônica resignação de um retrato na parede, de um nostálgico episódio fora do tempo. Para o pesquisador, turista, comerciante, curioso ou aventureiros que percorrem esse sertão em busca de valores naturais, edificados ou antropológicos, para aqueles que acidentalmente possam ali pernoitar, e mesmo para os moradores locais, não seria monumental edificação a despertar interesse por esses livros, quando nem mesmo as autoridades públicas alcançam leitura. Nesse contexto, mais importante que saber desenhar o alfabeto é saber ler uma paisagem. Isso não se consegue com obras, mas com educação. Vejam o pilar da ponte Isidoro França, o mais eloquente cartão postal de Teresina, já mascarado de propagandas aprovadas pela Prefeitura. Nesse trilho, o fato político em causa não deixa de ser uma deformação sensorial-emotiva à percepção do espaço urbano, posto que a partir dele é que se poderia apreender o SÍTIO. Seria como adaptar a cidade para as pessoas e não as pessoas para a cidade.
 

O Monumento Oeiras, em adiantado processo de degradação, ainda é o acervo edificado, indissociável dos veios d’água, morros e pastagens. Por isso, vejo o obelisco como um desvio de conduta, resultado da nossa diversidade cultural e consequente substituição dos valores tradicionais por novos empreendimentos, conflitantes com aqueles. Isso é chocante. Reflete desentrosamento institucional e tradicional prática de obras não sincronizadas, com aquilo que substantivamente configura a história de um lugar.

Ver é sentir. Para isso, relações humanas seria o portal de acomodação para essas desavenças afetas à percepção dos espaços. Nesse anfiteatro, a mídia tem muito o que fazer, notadamente sobre planejamento urbano e territorial, posto que isso não deve ser resultar de cronogramas de obras nem de ímpeto estadista mas, ao contrário, de uma visão holística do meio ambiente. Até porque, o centro histórico não começa nos limites administrativos do tombo, mas na apreensão de todo o aglomerado e áreas adjacentes.

O que defendo, sem limites de fronteiras geográficas ou políticas, é o SER e não a ALEGORIA, que interpõe-se ao DOCUMENTO, maior e melhor referência de um lugar. São esses documentos, testemunhos remanescentes da história, que nos prende ou nos atrai para um Coliseu, para os Sete Povos das Missões, ou para o sertão do Piauí. A beleza desses valores está na percepção de suas especificidades. Imagino que esse obelisco, pelas dimensões físicas e ecumênicas, independente de localização será, a exemplo do monumento do Jenipapo em Campo Maior, mais um adversário às torres e cruzeiros da cristandade. Muitíssimo mais valeria uma investigação arqueológica, para uma possível identificação do pelourinho lusitano.

No que o espantalho da destruição não mais assuste, as investidas transformistas continuam mutilando espíritos. Temos muito mais em que investir física, econômica e socialmente. Desculpem os caríssimos defensores dessa proposta mas, o que torna um lugar caduco, de coisas deformadas e fora de lugar é a insustentabilidade promovida pela fragilidade das tramas de organização do solo. Sem planejamento lato, que leve em conta as raízes históricas, intervenções dessa natureza só contribuem para estimular as violentas descaracterizações do centro antigo. Por isso, considero a idéia uma afronta à causa da preservação, pelo que projeta de desconstrução dos patrimônios edificado e natural. Triste o lugar que precisa desse tipo de monumento para ser percebido.



Olavo Pereira da Silva Filho, piauiense de Campo Maior, é arquiteto, urbanista e Especialista em Restauração e Conservação de Conjuntos e Monumentos Históricos. Recebeu, em 2008, o Premio Nacional Rodrigo de Melo Franco de Andrade, concedido pelo IPHAN-MINC em vitude da publicação da monumental obra "Carnaúba, Pedra e Barro na Capitania de São José do Piauhy"

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