Ao concluir
105.577 voltas em torno da Terra, às 14h42 de 9 de fevereiro, o primeiro
satélite brasileiro terá completado 20 anos no espaço ainda em funcionamento. O
número de órbitas é mais um dos resultados impressionantes do SCD-1 (Satélite
de Coleta de Dados), que tinha expectativa de apenas um ano de vida útil quando
foi lançado pelo foguete norte-americano Pegasus, em 1993.
Projetado,
construído e operado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o
SCD-1 segue retransmitindo informações para a previsão do tempo e monitoramento
do nível de água dos rios e represas, entre outras aplicações.
“Após
este longo tempo em órbita, o SCD-1 continua em operação e se prova um projeto
de reconhecido sucesso, um verdadeiro tributo à competência da engenharia
espacial brasileira. O lançamento do SCD-1 colocou o INPE entre as instituições
que efetivamente dominam o ciclo completo de uma missão espacial desde sua
concepção até o final de sua operação em órbita”, diz Leonel Perondi, diretor
do INPE.
O
início da operação em órbita do SCD-1 marcou também o estabelecimento do
Sistema Brasileiro de Coleta de Dados Ambientais, cujas informações são
utilizadas por diversas instituições no Brasil e no exterior.
“Ele
foi instrumental para o desenvolvimento de programas espaciais tanto da
Argentina como da China. No primeiro, ajudou a calibrar a Estação Terrena de
Córdoba e no segundo caso, a Estação Terrena de Nanning”, conta Pawel
Rozenfeld, chefe do Centro de Rastreio e Controle (CRC) do INPE. “Nós fazíamos
a previsão da passagem do SCD-1 pela China e os chineses utilizavam essas
informações para aperfeiçoar seu próprio sistema de determinação em órbita,
pois eles ainda iriam lançar satélite na banda S. Para a Argentina, que não
tinha nenhum satélite na época, o SCD-1 foi ainda mais importante para
determinar os parâmetros da sua estação”.
Melhorias
A
recepção das mensagens enviadas por plataformas de coleta de dados (PCDs) e
retransmitidas pelo satélite SCD-1 é realizada por um equipamento denominado
PROCOD (Processador de Coleta de Dados), cuja tecnologia de processamento
digital vem sendo aperfeiçoada. Uma nova versão do sistema, o PROCOD-III, foi
instalada em setembro de 2012 na estação de recepção de Cuiabá.
“Melhoramos
muito o processamento dos dados em solo. Isso é fundamental para compensar
eventuais problemas decorrentes do tempo de vida útil do satélite, permitindo
sobrevida adicional ao SCD-1 em termos de desempenho de recepção de mensagens
transmitidas pelas PCDs”, explica Wilson Yamaguti, coordenador substituto de
Engenharia e Tecnologia Espacial (ETE) do INPE.
Continuidade
A
Agência Nacional de Águas (ANA), maior usuária do Sistema Brasileiro de Coleta
de Dados Ambientais, e a Agência Espacial Brasileira (AEB) firmaram, em 2012,
memorando de entendimento visando o monitoramento dos rios brasileiros. A
iniciativa permitirá a continuidade e mesmo a expansão dos serviços de coleta
de dados prestados pelos satélites SCD-1 e SCD-2, atendendo a diversos outros
usuários do sistema.
Um
Grupo de Trabalho (GT) formado por membros da ANA, AEB e INPE analisa
alternativas para a missão de coleta de dados hidrometeorológicos que atendam a
realidade atual, buscando otimizar a infraestrutura já instalada no país e a
economia dos recursos públicos.
“Neste
processo, coube à ANA expressar suas necessidades de melhoria e aperfeiçoamento
das coletas de dados, visando o monitoramento temporal com uso de satélites. Ao
INPE coube a análise técnica que atendesse cenários alternativos para
configurar um novo sistema eficiente de coleta de dados e com diversos níveis
de propositura e implicações técnico-econômicas. À AEB coube a coordenação dos
trabalhos e apoio logístico para a sua realização”, informa Wilson Yamaguti.
Segundo
o engenheiro do INPE, as soluções discutidas pelo GT se baseiam em uma
constelação de satélites de coleta de dados, similares aos SCDs, compatíveis
com as redes de plataformas existentes, porém com recursos adicionais como
capacidade de propulsão e correção de órbita, além de capacidade de
processamento e de armazenamento de mensagens a bordo.
A coleta de dados
O
Sistema Brasileiro de Coleta de Dados Ambientais é baseado em satélites de
órbita baixa que retransmitem a um centro de missão as informações ambientais
recebidas de um grande número de plataformas de coleta de dados (PCDs)
espalhadas pelo Brasil.
As
PCDs são equipamentos automáticos que possuem sensores eletrônicos para a
medição de parâmetros ambientais, como o nível de água em rios e represas, a
qualidade da água, a precipitação pluviométrica, a pressão atmosférica, a
intensidade da radiação solar, a temperatura do ar, entre outros.
O
satélite capta e retransmite os sinais das PCDs instaladas por todo o país e os
envia para as estações de recepção e processamento do INPE em Cuiabá (MT) e em
Alcântara (MA). Voando a uma velocidade de 27.000 km por hora, o SCD-1 leva
aproximadamente uma hora e 40 minutos para completar uma volta em torno da
Terra. Assim, a estação recebe várias vezes por dia os dados transmitidos por
cada PCD.
Da
estação de Cuiabá ou de Alcântara, os dados coletados pelo satélite são
transmitidos para o INPE Nordeste, o centro regional do Instituto localizado em
Natal (RN), onde atualmente está instalado o Sistema Nacional de Dados
Ambientais (SINDA), para processamento e distribuição de suas informações aos
usuários a partir do endereço http://sinda.crn2.inpe.br.
O
Sistema Brasileiro de Coleta de Dados Ambientais conta com uma rede de mais de
1000 plataformas instaladas e, nos últimos vinte anos, ininterruptamente, tem
prestado serviços à sociedade através do monitoramento de parâmetros ambientais
nas regiões mais remotas do território brasileiro.
Além
do pioneiro SCD-1, integra hoje o sistema de coleta de dados o satélite SCD-2.
Os satélites CBERS-1, CBERS-2 e CBERS-2B, quando operacionais, fizeram parte do
sistema.
História
Em
1979, quando aprovada pelo governo federal a Missão Espacial Completa
Brasileira (MECB), foi determinado o desenvolvimento de quatro satélites
artificiais, do veículo lançador e de toda a infraestrutura de solo, inclusive
uma base de lançamentos. Coube ao INPE a responsabilidade pelo desenvolvimento
dos satélites, sendo dois de coleta de dados e dois de sensoriamento remoto,
bem como da infraestrutura de solo para sua operação em órbita.
O
primeiro satélite, o SCD-1, é um satélite de coleta de dados com 115 kg. Foi
totalmente projetado, desenvolvido e integrado pelo INPE, com importante
participação da indústria nacional. Para seu desenvolvimento, o INPE investiu
em laboratórios modernos e no desenvolvimento de seus recursos humanos.
O
Laboratório de Integração e Testes (LIT) foi especialmente projetado e
construído para atender às necessidades da MECB. Dotado das mais avançadas
tecnologias para testes e integração de sistemas espaciais, o LIT/INPE é
considerado um dos mais avançados complexos de laboratórios de pesquisa e
desenvolvimento de tecnologia espacial do hemisfério sul. Neste laboratório foi
integrado e testado o SCD-1.
Já a
operação de lançamento foi comandada a partir do Centro de Controle de Wallops,
no estado de Virgínia, costa leste dos Estados Unidos. No dia 9 de fevereiro de
1993, uma hora e 15 minutos depois da decolagem, a 83 km da costa da Flórida e
a 13 km de altitude, o foguete Pegasus foi liberado da asa de um avião B52 da
Nasa. Como havia sido previsto, o foguete cai em queda livre por cinco segundos
antes de acionar seus motores em direção ao espaço. Poucos minutos depois, às
11h41 (hora de Brasília), o SCD-1 é colocado em órbita da Terra, a uma altitude
de 750 km.
Tudo
transcorreu de acordo com o previsto. Os engenheiros que acompanham o
lançamento a partir do Centro de Controle de Wallops e do Centro de Rastreio e
Controle do INPE, com operações em São José dos Campos (SP), Cuiabá (MT) e
Alcântara (MA), conferem com satisfação e orgulho o sucesso do lançamento e do
início da operação do satélite, pois, logo após a entrada em órbita, os
primeiros sinais do SCD-1 são captados pela Estação Terrena situada no
Maranhão. Fonte:
INPE

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