terça-feira, 12 de abril de 2016

“O país vive um período de deboche e mediocridade”

 Afonso Bentes (Brasília)

 
Depois da carta vazada, o áudio vazado. Com a divulgação "por acidente" de um áudio em que fala praticamente como presidente, Michel Temer (PMDB) implodiu nesta segunda-feira qualquer possibilidade de relacionamento com a presidenta Dilma Rousseff (PT) e angariou críticas até da oposição que trabalha pela queda da petista. O vice-presidente voltou a protagonizar momentos que talvez nem os melhores roteiristas fossem capazes de elaborar e instalou mais uma vez a dúvida sobre acidentes e intencionalidades estratégicas em seus gestos públicos.

O primeiro capítulo desta novela ocorreu em dezembro passado, com uma carta enviada à mandatária dizendo que ele se sentia um "vice decorativo". Naquela época, o PMDB ainda estava no Governo e o processo de impeachment tinha começado a tramitar na Câmara dos Deputados havia apenas cinco dias. Nesta segunda-feira, a quatro dias do início da votação da destituição da presidenta, com parte dos peemedebistas agindo na bancada oposicionista e o placar do impeachment ainda indefinido, veio a nova entrega. Desta vez foi um grupo de WhatsApp de deputados do PMDB em que Temer falava de seus planos e desafios futuros como possível líder da nação. No áudio de 14 minutos, tornado público pelo jornal Valor Econômico, o vice está no futuro: Rousseff já perdera a batalha do impeachment na Câmara dos Deputados e o caso está agora nas mãos do Senado Federal, que é quem julga de fato a mandatária. O detalhe é que a votação no plenário da Câmara está prevista para ocorrer apenas no próximo fim de semana.

Em Brasília, alguns consideravam o episódio um deslize calculado de Temer para passar tranquilidade aos mercados e a outros setores de que planeja uma transição suave, com "sacrifícios" para sair da crise, mas sem imolar os programas sociais. Outros afirmaram que o envio da mensagem era claramente um erro do grupo do peemedebista. O ensaio presidencial de Temer fez até a empresa de consultoria de política Eurasia Group emitir um comunicado extra em que analisa qual o impacto da gravação. A empresa diz que o vazamento foi "claramente negativo" ao vice e seu entorno, mas não deve impactar de maneira importante o jogo do impeachment.

“Agora, quando a Câmara dos deputados decide por uma votação significativa declarar a autorização para a instauração de processo de impedimento contra a senhora presidente, muitos me procuraram para que eu desse pelo menos uma palavra preliminar à nação brasileira, o que eu faço com muita modéstia, com muita cautela, com muita moderação, mas também em face da minha condição de vice-presidente e naturalmente de substituto constitucional da senhora presidente da República”, diz Temer em um trecho da gravação.

O vice se dirige “ao povo brasileiro”, diz que se recolheu para não aparentar que estava se precipitando na ânsia de ocupar o lugar de Rousseff e afirma que o país precisa de um “Governo de salvação nacional”. A reação foi imediata, e diante da repercussão no meio político, o vice-presidente convocou os jornalistas para um pronunciamento de três minutos no meio da tarde. Repetiu a versão de seus assessores: sua intenção era mandar o áudio para um amigo, não para um grupo com dezenas de participantes e que queria se antecipar caso fosse instado a comentar o resultado positivo do impeachment na Câmara.

De frente para o espelho

A presidenta não fez manifestação pública, mas falou a assessores que “caiu a máscara de conspirador” de seu vice, uma mensagem que governistas repetem à exaustão desde o desembarque do PMDB do Governo. O ministro-chefe do Gabinete Pessoal, Jaques Wagner, foi mais duro. Afirmou que Temer "rasgou uma fantasia" e defendeu a renúncia do vice, caso o impeachment caia, levando a um ponto de não retorno o rompimento com o peemedebista. "Imagino que ele possa ter feito esta declaração vestindo a faixa presidencial em frente ao espelho", disse. Questionado se o relacionamento entre Dilma e Temer seria apenas o de pessoas educadas, ele refutou: "Não há educação para conspiradores. Os conspiradores não têm código de ética".

No Congresso, a divulgação do áudio causou espanto em governistas e oposicionistas. Entre os aliados de Dilma o discurso era de que Temer tenta interferir na votação do impeachment e mostra que ele está articulando para derrubar a presidenta. “A fala é quase um ato falho. A pessoa sonha dia e noite em ser presidente da República, só esqueceu que ele deve lançar um programa, disputar uma eleição e se tiver votos, um dia ser presidente da República, não através de um golpe”, ponderou o deputado Henrique Fontana (PT-RS).

O opositor Álvaro Dias (PV-PR) afirmou que o país vive um período de deboche e mediocridade. “O vice já está ensaiando o seu Governo, considera favas contadas o impeachment. Isso demonstra o Governo que temos. É muita trombada no bom senso”, afirmou. Outros opositores seguiram na mesma linha. “A divulgação foi um desastre, muito infantil”, disse o opositor Júlio Delgado (PSB-MG). Para ele, um grupo de indecisos poderia ser influenciado pelas palavras do vice-presidente e se decidir por não apoiar o impeachment.

Outro oposicionista, Bruno Araújo (PSDB-PE), discorda dessas avaliações. “Tudo impacta, em maior ou menor escala o impeachment até o dia da votação, mas a votação está praticamente cristalizada, dos dois lados”. Carlos Marun (PMDB-MS) saiu em sua defesa: “Temer estava consciente da responsabilidade de estar preparado para assumir o comando da nação em conformidade com o seu papel constitucional”, ponderou. Fonte: jornal El País na sua versão online
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