terça-feira, 14 de junho de 2016

A poesia segundo Jucivaldo Dias



FAÇANHA DO PICA-PAU COM O PAPAGAIO

Certo dia no meu Sertão
Fazendo uma caçada
Encontrei um pica-pau
Que de forma educada
Me cumprimentou dizendo: -
Como vai camarada?


Com aquela saudação
Ali mesmo na chapada
Respondi lhe dizendo:
Estou bem, obrigada
Descansando um pouquinho
Na sombra dessa ramada.


Disse ele para mim: -
Não tenhas medo amigo
Seja bem vindo a floresta
Não terás nem um perigo
Pode ficar à vontade
Desde que não mecha comigo.


Era um pica-pau valente
Bastante grande e malhado
Porém a cara chata
Chupete liso e arrebitado
Que pra lutar na caatinga
Era bastante afamado.


Ali ele ficou
Calado e sizudo
As pernas tortas e finas,
A cara chata e sambudo
No lugar onde morava
Mandava sempre em tudo.


De repente um papagaio
Veio em sua direção
Pra tomar sua morada
Sem direito e sem razão
Foi pegando o pica-pau
E lhe dando um beliscão.


O encontro com o pica-pau
Faz até medo contar
Cada topada que dava
Saltava pena pro ar
Naquele dia a floresta
Faltou pouco pra acabar.


O papagaio enrraivecido
Começou uma discussão
Chingava o pica-pau
Chamava filho do cão
Você é muito esquisito
Só tem grande o bicão.


Ele então não suportou
Tamanha chateação
Agarrou o papagaio
E disse com razão
Vou lhe dar uma furada
Pra tripa cair no chão.


Por esta forma ele dizia –
Nunca tive preconceito
Desta arma que Deus me deu
Sempre fiz um bom proveito
Se você me enfrentar
Vou acabar com seu peito.


Disse outro desaforo
De doer o coração
Não inveje a vida minha
Não seja um covarde não
Tanta árvore na floresta
Mude de opinião!


O papagaio lhe respondeu
Por esta forma a falar
Você vai sair daqui
Custe lá o que custar
Permanecer nesta morada
Você não vai continuar.


O pica-pau lhe respondeu
Com tamanha aflição
Vá embora daqui
Bem pra longe do sertão
Com a ponta do meu bico
Vou lhe dar um penicão.


Disse ele novamente
Por esta forma a dizer
Vou lhe dar uma surra
Pra você aprender
Com uma furada no peito
Sua tripa vai descer.


Trabalhei nesta aroeira
De sol a sol sem parar
Na fura desse ôco
Morrendo de trabalhar
Nem na derruba dos cavacos
Ninguém veio me ajudar.


Já falei tudo a você
Mais outra coisa vou falar
O que vou fazer agora
Ninguém pode duvidar
Vc aqui não bota banca
Que eu vou lhe castigar.


Ele disse novamente
Com muito constrangimento
Pra construir minha morada
Só eu sei o sofrimento
Desde quando comecei
Até o último momento.


No batoque do meu bico
Eu jamais empolgava
O éco estremecia
Na chapada onde eu estava
A floresta toda zunia
Com os cavacos que saltava.


O papagaio de atrevido
Achou pouco a confusão
Pegou logo o pica-pau
Sem direito e sem razão
Dizendo: - reaja agora
Seu cabra feio do cão.


E aí saíram os dois
Se acabando na porrada
Tanto pulo, tanto grito
Que estrondava nas quebrada
Na cara do papa o pica deu
Uma tamanha tabocada.


A luta parecia
Uma guerra sem fim
Cada bicada que levava
O papagaio dizia assim
Pica-pau vou lhe matar
Seu cabra de peste ruim.


Dessa vez vou lhe pegar
Você vai esmorecer
Vou lhe dar um penicão
Pra ver a tripa descer
Jogou-lhe o bico no pica
Ele tornou a rebater.


O pica-pau dava bicada
Que as penas do papa voava
O papagaio dava no pica
E a mesma coisa se dava
Na ponta fina dos bicos
Faísca de fogo saltava.


O papagaio disse ao pica
Pensou que era fascim,
Vou preparar meu bico
Pra lhe pegar bem de finim
Mas quando ele reagiu
Levou uma no fuscim.


O pica-pau disse: -
Vou lhe matar na unha,
Parece que você veio
Com o viros da xicungunha
Você é mais trapaceiro
Do que o tal de cunha.


Não adianta tirar pulo
Veloz que nem um gato
Não venha pra cima de mim
Fazendo o papel de rato
Só me parece que você
Faz parte da lava jato.


O papagaio lutou tanto
Que já estava sem ação
Disse: - por favor amigo pica
Não me faça isso não
Que já me corre uma frieza
Pelo fundo do calção.


Não me mate desse jeito
Tenha de mim compaixão
Eu sei que eu fui errado
Quero agora seu perdão
Ainda tenho alguns dólar
Guardado no cuecão.


Por favor me solte
E tome aqui esse tustão
Até nas meias ainda tenho
Oitocentos patacão
É um dinheiro extra
Que sobrou do mensalão.

Termino este cordel
Pedindo por compaixão
Alguém que algo faça
Em prol da preservação
Desses dois personagens
Ameaçados de extinção.

Essa não é uma História
Do primeiro de Abril
Pois quem nela acreditar
Não tem a mente infantil
O poeta fez sua parte
Só falta o ICMBIO.


Jucivaldo Dias é um poeta piauiense
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