segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

A poesia segundo Vera Pavlova



FELICIDADE

Denso como o mel, cada momento,
Raiando como o âmbar.
Há muito perdi a noção do tempo
E exilei o calendário.
Odeio a contagem do que for
E a ideia de poupança!
Meu anual crédito de amor
Dissipo numa andança.
Não quero cair, telha do telhado –
Quero morrer pouco a pouco.
Quero morrer observando
Como o corpo, gota a gota,
Se destaca da vida já cumprida.
Deixar que ela de mim se esvaia,
Como de uma peneira muito fina,
E – não tão logo – suspirar de alívio,
Por nada ver no fundo.
Guardai minha tranquilidade.
Perdi a você por aqui, n’ algum lugar.
Lembro que daqui eu não saí para
Lugar algum, e que ninguém saiu.
É preciso apenas recordar por onde, e quando,
Eu vi você pela última vez,
Querido.
Vamos um ao outro nos tocar
Enquanto temos mãos:
Palma, antebraço, cotovelo…
Vamos nos amar pelo tormento
Vamos um ao outro machucar,
Mutilar, deformar, adulterar
Para que melhor nos lembremos
Para que mais nos afastemos.
Se não houvesse máscara, o rosto
Há tempo teria perdido a forma.
Se não houvesse este anel,
Não haveria a benemérita norma,
Não seria  iluminada esta prisão,
Nem voluntária esta preguiça,
Há tempo teria saído da razão,
De medo, de dúvida e aflição…

Tradução: Aurora Bernardini

Vera Pavlova nasceu em Moscou em 1963. Graduou-se no Schnittke College of Music e na Gnessin Academy, especializando-se em história da música. Aos dezoito anos iniciou seus estudos em composição musical. Também trabalhou como monitora no Shaliapin Museum e publicou ensaios sobre música. Ao longo de uma década cantou em coros litúrgicos. Palova começou a escrever poesia aos vinte anos de idade, depois do nascimento de sua primeira filha, publicando seu primeiro livro aos vinte e quatro anos.

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