sexta-feira, 12 de maio de 2017

A poesia segundo Bandeira Tribuzi



O homem em pele e osso
(fragmentos)

A pele é superfície,
os ossos são entranha.
A pele é o que se vê,
os ossos o que escapa.
A pele é uma casca,
os ossos uma safra.
A pele é entrega,
o osso é arma.
A pele é palma,
o osso é clava.
A pele é a pintura,
os ossos são a casa.
A pele é o acidente,
o osso o permanente.
A pele são as nuvens,
os ossos são a água.
A pele são os musgos,
os ossos são montanhas.
A pele é o agora,
os ossos são milênios.
A pele é um orvalho,
os ossos são invernos.
A pele é viração,
os ossos são os ventos.
A pele são palavras,
os ossos são segredo.
A pele é o direito,
os ossos são o avesso.
A pele são cabelos,
os ossos pensamento .
A pele é a pulseira,
os ossos são o pulso.
A pele são os gestos,
os ossos são o músculo.
A pele são os seios,
os ossos são o útero.
A pele é uma algema,
o osso a faz inútil.
A pele é só o som,
os ossos são o sino.
A pele são as vozes,
os ossos o sentido.
A pele o que parece,
os ossos o que é.
A pele é prece,
os ossos fé.
A pele o que se rasga,
os ossos o que quebra.
A pele é o que verga,
o que comprime alarga,
o que dilata e aperta,
os ossos coisa certa
de dimensão exata.
A pele é assim frágil
coisa apenas de ver
e os ossos o tutano
de que se faz o ser.

José Tribuzi Pinheiro Gomes, que usaria o nome literário de Bandeira Tribuzi, nasceu em São Luís do Maranhão no dia 2 de fevereiro de 1927. Foi poeta, novelista, romancista, dramaturgo, compositor (com 93 composições musicadas, incluindo o hino oficial da cidade de São Luís), ensaísta, crítico literário, historiador e professor.

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