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| Fita preta em sinal de luto em táxi de Santa Maria |
por Caio Quero
Mas não são apenas aqueles diretamente atingidos pelo desastre que
necessitam de assistência. Nos últimos dias, pessoas que de alguma forma
tiveram contato com a tragédia na cidade, como taxistas e coveiros, também
procuraram o serviço de auxílio do núcleo psicológico de emergência criado após
o incidente.
Com uma equipe de
130 pessoas, o serviço vem funcionando 24 horas por dia para atender à demanda
de pacientes. Além disso, os especialistas têm visitado casas de familiares,
hospitais e acompanhado os enterros e velórios dos mortos no incêndio da boate
Kiss.
"Nem todas as pessoas precisam de atendimento de saúde mental.
Algumas têm suas redes sociais, suas redes psíquicas, redes religiosas que
resolvem. Quase 70% das pessoas poderão resolver isso em suas redes
afetivas", afirmou Maria de Fátima Fischer, psicóloga e representante do
Estado do Rio Grande do Sul no núcleo, à BBC Brasil.
"Agora, pouco mais de 20% das pessoas envolvidas diretamente,
indiretamente ou mesmo que não tiveram relação com o evento, precisarão de
algum cuidado. Já entre 1% e 3% das pessoas podem desenvolver casos graves de
saúde mental", acrescentou a psicóloga.
Ela conta que, além de atender aos parentes e amigos das vítimas, o
programa vem auxiliando bombeiros e policiais que atuaram no resgate, médicos,
coveiros responsáveis pelos enterros e até taxistas.
"Eles estão fazendo o trabalho deles e têm que aguentar essa barra.
Eles têm que ouvir muitas coisas, alguns perderam parentes", disse Maria
de Fátima, que afirmou que o grupo está em contato com associações de taxistas
para oferecer auxílio. Professores universitários que perderam seus alunos
também serão orientados pelo programa.
Luto
A equipe de atendimento vai funcionar 24 horas por dia durante todo o
primeiro mês após o desastre, mas os trabalhos devem continuar por pelo menos
seis meses. Segundo a psicóloga, há várias formas de luto após uma tragédia
como a do último domingo.
"É esperado que as pessoas gritem, briguem, enlouqueçam nessa hora.
As pessoas têm que não dormir ou não comer por um tempo até que a coisa possa
ser melhor resolvida", diz.
Segundo ela, no entanto, outras pessoas atingidas podem desenvolver
estados de luto que podem durar anos e que envolvem também uma depressão
física, com distúrbios alimentares e de sono.
"Um mecanismo importante para outras é negar a morte, mas isso fica
represado e vai aparecer em algum momento."
Para lidar com estas situações, as equipes desenvolveram estratégias
para auxiliar familiares e amigos durante os enterros e velórios.
"É importante para a maioria das pessoas que elas vejam o corpo
para que possam concretizar que aquilo aconteceu. Então, houve famílias que
chegaram quando os caixões já estavam fechados, e nós abrimos. Algumas pessoas
precisam viver isso, se não parece que aquilo não aconteceu."
A psicóloga afirma ainda que é necessário criar eventos na cidade que,
de alguma forma, se coloquem "contrários" à tragédia. Ela cita como
exemplo a marcha organizada na última segunda-feira em que milhares de pessoas
vestidas de branco carregaram flores e cartazes com fotos das vítimas do
incêndio.
"É uma resposta de solidariedade contra a solidão, as pessoas
começam a sentir que a dor é compartilhada. Os símbolos de luto nas lojas e
casas também ajudam neste sentido." Fonte: BBC Brasil

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