terça-feira, 27 de outubro de 2015

O delírio de uma crueldade universal

É impossível percorrer um jornal qualquer, seja qual for o dia, o mês ou o ano, sem deparar quase linha por linha com os sinais da perversidade humana mais detestável, quase sempre acompanhados pelas mais inverossímeis proclamações de honestidade, de bons sentimentos e de caridade, ou por manifestações de maior confiança em relação ao progresso e à civilização.
D primeira à última linha todos os jornais não passam de um amontoado de horrores. Guerras, crimes, roubos, atentados ao pudor, torturas, crimes públicos (corrupção) e crimes particulares – enfim, o delírio de uma crueldade universal.
E é com este repugnante aperitivo que o homem civilizado toma todos os dias o seu café da manhã. Tudo neste mundo transpira a crime: o jornal, a muralha e a face do homem.
Custa-me a acreditar que se possa de mão limpa tocar num jornal sem sentir um vômito de repulsa. 

por Charles Baudelaire (extraído do livro Meu Coração a Nu)
Em TemPo:

Quando este texto foi escrito pelo poeta francês Charles Baudelaire, ainda não existia televisão e a Internet nem em sonho existia. Hoje o sangue jorra é da tela da TV e dos sites de notícias. Este texto de Baudelaire é de uma atualidade desconcertante.
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