quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

A poesia segundo Raymundo Correa


Ser Moça e Bela ser


Ser moça e bela ser, por que é que lhe não basta?

Porque tudo o que tem de fresco e virgem gasta

E destrói? Porque atrás de uma vaga esperança

Fátua, aérea e fugaz, frenética se lança

A voar, a voar?...

Também a borboleta,

Mal rompe a ninfa, o estojo abrindo, ávida e inquieta,

As antenas agita, ensaia o voo, adeja;

O finíssimo pó das asas espaneja;

Pouco habituada à luz, a luz logo a embriaga;

Boia do sol na morna e rutilante vaga;

Em grandes doses bebe o azul; tonta, espairece

No éter; voa em redor, vai e vem; sobe e desce;

Torna a subir e torna a descer; e ora gira

Contra as correntes do ar, ora, incauta, se atira

Contra o tojo e os sarcais; nas puas lancinantes

Em pedaços faz logo às asas cintilantes;

Da tênue escama de ouro os resquícios mesquinhos

Presos lhe vão ficando à ponta dos espinhos;

Uma porção de si deixa por onde passa,

E, enquanto há vida ainda, esvoaça, esvoaça,

Como um leve papel solto à mercê do vento;

Pousa aqui, voa além, até vir o momento

Em que de todo, enfim, se rasga e dilacera.

ó borboleta, pára! ó mocidade, espera!



RAIMUNDO CORREIA, foi um magistrado, professor, diplomata e poeta maranhense, nasceu em 13 de maio de 1859, a bordo do navio brasileiro São Luís, ancorado na baía de Mogúncia, MA, e faleceu em Paris, França, em 13 de setembro de 1911.
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