quinta-feira, 13 de abril de 2017

A poesia segundo Nauro Machado



Ofício

Ocupo o espaço que não é meu, mas do universo.

Espaço do tamanho do meu corpo aqui, inúteis quilos de um metro e setenta e dois centímetros, o humano de quebra.

Vozes me dizem: eh, tu aí! E me mandam bater serviços de excrementos em papéis caídos
numa máquina Remington, ou outra qualquer.

E me mandam pro inferno, se inferno houvesse pior que este inumano existir burocrático. 

E depois há o escárnio da minha província.

E a minha vida para cima e para baixo, para baixo sem cima, ponte umbilical partida, raiz viva de morta inocência.

Estranhos uns aos outros, que faço eu aqui?

E depois ninguém sabe mesmo do espaço que ocupo, desnecessário espaço de pernas e de braços preenchendo o vazio que eu sou.

E o mundo, triste bronze de um sino rachado, o mundo restará o mesmo sem minha quota de angústia e sem minha parcela de nada.
 
Nauro Machado foi um poeta maranhense. 


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