sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

A poesia segundo José Chagas

O Apito do Passado

O Mearim derrama na distância uma água que em sonhos nos invade, como fio invisível que se lance a separar em duas a cidade.

E essa água vem banhar sem que se canse a vida inteira que no rio nade, porquanto água de amor que lava infância lava também velhice e mocidade.

Mearim — rio velho e rio novo, alegria e aflição de um mesmo povo — um mar se afoga nos mistérios teus.

Mas preservas em ti, para Pedreiras, vibrando no ar, o apito das primeiras lanchas que nos deixaram seu adeus.

Os homens rasos

Os homens é que estão traindo a vida,
traindo as águas que não voltam mais
à sua velha paz, hoje perdida
na própria refração dos seus cristais.

Do equilíbrio do mundo se duvida com as ambições pesando desiguais sobre uma ecologia ressentida dentro dos seus telúricos sinais.

Agora são mais rasas as vertentes, rasos os homens e as ações urgentes com que buscam mover águas e terras.

E tu, velho, ó velho rio, entre homens ficas, vendo-os enodoar-te as águas ricas e as cortinas de sonhos que descerras.

José Francisco das Chagas nasceu em Piancó, Paraíba, em 29 de outubro de 1924. Poeta, jornalista, membro da Academia Maranhense de Letras (AML). José Chagas foi um poeta paraibano, mas, com inspiração maranhense.
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