domingo, 17 de julho de 2011

Catulo da Paixão Cearense revisitado pelo blog Dom Severino

Como um boi velho, cansado,
pacientemente a remoer,
que o capim verde, que come,
torna outra vez a comer,
hoje, velho, relembrando
minha alegre juventude,
tudo quanto já fruí,
como o boi, vou ruminando
o meu Passado saudoso,
que foi, em tempo ditoso,
o capim "verde" e cheiroso,
que quando moço, eu comi!
Mas, às vezes, a Saudade
acorda-me a Mocidade
com tanta exasperação,
que eu abro as duas porteiras
dos olhos, meu bom patrão,
e deixo que, atropelada,
saia, só numa arrancada,
toda a boiada das lágrimas
do curral do coração."

(Catulo da Paixão Cearense)


HOMENAGEM A CATULLO CEARENSE

No dia 12 de Setembro de 1918, realizou-se no Theatro S. Pedro, hoje Theatro João Caetano, no Rio de Janeiro, uma festa em honra do poeta Catulo Cearense, promovida pelos senhores: Ministros Guimarães Natal, Muniz Barreto, Pedro Lessa (do Supremo Tribunal) e Alberto d’0liveira (Plenipotenciário de Portugal); Drs. Miguel Calmon, Pandiá Calogeras, Afranio de Mello Franco, Eloy de Souza, Augusto de Lima e Juvenal Lamartine (homens d’Estado); Cons. Nuno de Andrade; Ministro Ataulfo de Paiva (da Corte Suprema); Professores Afranio Peixoto, Fernando de Magalhães, Pacheco Leão, Miguel Couto e Dias de Sarros (da Fac. de Medicina); Roquette Pinto (do Museu Nacional), e Assis Chateaubríand (da Fac. de Direito do Recife); Alberto de Oliveira, Mario de Alencar, Coelho Netto, e Paulo Barreto (da Academia Brasileira); Drs. Pires Brandão, James Daroy, Francisco Solano Carneiro da Cunha, Primitivo Moacyr, Baul Caracas, Alfredo Pinto (advogados); Drs. Paulo ãa Silva Araújo, Murtinho Nobre, David Sanson, Edmundo de Oliveira, Antônio Austregesilo, Abel Porto, Agenor Porto, Carlos Silva Araújo (médicos); Drs. Luie Carlos, Humberto de Campos, José Maria Belo, Humberto Gotuzsto, Pereira da Silva, Antônio das Neves, Carlos Costa (publicistas e homens de letras), e Manoel Vieira Martins, (capitalista em S. Paulo), que decidiram publicar a primeira edição deste livro.

Com o concurso gracioso da exma. sra. Da. Angela Vargas Barbosa Vianna, e dos senhores Mario Pinheiro, Frederico Rocha e o ator Alberto Pires foram ditas e cantadas várias produções do poeta. Em cena aberta os Srs. Humberto ãe Campos, poeta e jornalista, e Roquette Pinto, sábio e literato, pronunciaram os seguintes discursos:
“Entre os nossos contos populares de origem européia, colecionados por Silvio Romero, eu coloco em primeiro lugar, pela delicadeza e ornamentação verdadeiramente oriental, a linda história do “Papagaio do Limo Verde”. Certa moça, muito bonita, moradora nas vizinhanças de uma grande cidade, capital de um grande reino, vivia em tal opulência, cercada de tanta pedraria, aue não se via outra tão rica entre todas as princesas do mundo. Estranhando o exagero dessa magnificência misteriosa, as vizinhas ficaram de aleatéa, até que descobriram a maravilha daquele segredo. À noite, quando todos dormiam, a moça abria a janela do palácio, e por ela penetrava um papagaio muito verde, que entrava reclamando água. A moça corria a trazer-lhe uma bacia de ouro ondulante da linfa mais límpida, dentro da qual o papagaio se atirava sofregamente, ruflando as grandes asas insofridas. E cada pingo d’água que voava da bacia, transformava-se em um diamante que a rapariga ia apanhando, ficando, assim, dia a dia, mais rica. Ao fim do banho, o papagaio estava transformado em um formoso mancebo, como outro mais formoso não havia na terra. Era o Príncipe do Limo Verde.
Eu não posso ler ou ouvir os versos sertanejos de Catulo da Paixão Cearense, — esses mesmos versos que ele vos oferece nesta festa, sem que me assalte à imaginação a faiscante história desse encantado príncipe perdulário. O ourives que trabalhou no ouro virgem da linguagem popular as jóias rústicas e maravilhosas que por aí andam, é necessariamente um grande e lídimo artista, um fidalgo poeta, que se disfarça em ave cantadeira, para melhor espalhar, a mancheias, como o Príncipe do Limo Verde, a rutilante pedraria do seu erário. Catulo é realmente um misto de singeleza e de opulência, um ponto em que se misturam, formando o mais pitoresco dos riachos, os veios que passam pelos campos cultivados e as fontes que descem, gementes e ligeiras, do largo seio das matas indomesticadas. A sua poesia simples, doce e ingênua, mas em versos de métrica perfeita, é uma resina do sertão a arder, cheirosa, num turíbulo de prata ou de ouro. Evolam-se das suas rimas os mais inocentes perfumes da terra: cheiro de baunilha, de leite, de folha machucada, de gado sadio, de benjoim, do rola virgem, de campina desabrochada: cheiro, enfim, do sertão do Norte, em Maio, pelos fins d’água…

Passados esses versos para a linguagem correntia, não teríamos nós, entre os dos nossos melhores líricos, outros que se lhes avantajassem em meiguice. Catulo não quer, porém, que os seus frutos nasçam no jardim ou brilhem em vasos de porcelana: quer conservá-los no mato, envoltos nas folhas. A seiva para o fruto quem a dá é Deus. À árvore compete, apenas, dar fôrma ao pomo. Catulo tem toda a inspiração dos grandes e verdadeiros poetas; e como é sertanejo, vasa essa forte seiva nos rústicos moldes que ihe fornece o sertão. Dos seus versos ele poderia dizer, como o velho poeta espanhol:
— “Yo los escribo: dictalos Apolo!”

HUMBERTO DE CAMPOS.
(Da Academia de Letras)
***

“A poesia popular do Brasil, orfã, anônima, mal acolhida nas páginas de alguns notáveis estudiosos do “folk-lore”, andava por aí representada nas estrofes choramingas das modinhas, em quadras de crítica faceta, ou nas lendas ingênuas do sertão boiadeiro, como as do “Espaço” e do “Riachão”.
O poeta, que nossa elite social hoje aplaude, realizou o milagre de compor, na linguagem de sua gente, poemas do largo fôlego, onde se descobrem duas características bem marcadas. Primeiro, aparece nos versos de Catulo Cearense a nota profundamente humana; todos os seus personagens são reais, vivos e agitados por sentimentos da espécie. Depois, surgem daquelas frases, que parecem informes, o perfume, a luz, a cor, o doce e o amargo da nossa natureza integral. Há, espalhados pela sua obra, fascículos de um tratado de história natural; fenômenos geológicos, feições da flora, hábitos da fauna, etnografia, tudo ali conspira, dando o verdadeiro feitio do habitat brasileiro. Não é o “poeta do Sertão” apenas; quem escreve a “Terra caída” — é poeta da Amazônia; quem escreve o “Lenha-dor” — é do Brasil inteiro, que se alcantila de matas…

Os nossos poetas que entoavam hinos ao torrão natal, até agora, pertenciam a duas categorias: uns falavam como a plebe, e não sabiam escrever; outros, sabiam escrever… e traçavam seus versos na língua dos nossos maiores, bem diferente da que vive na boca do nosso rude povo.

Mas, quem poderá exprimir, no formoso, clássico e polido idioma, a bruteza de recantos travados: o ímpeto primitivo de afeições desabridas, que estalam no coração dos que mourejam nos seringais? Que imagem, nascida na Ibéria, pôde servir ao paroára, quando deseja pintar a ruína global de sua existência, a perda completa de seus devaneios e de seus haveres, senão a figura da derrocada subitânea de um trecho de margem, onde plantou o rancho, a roça e armou a rede para sonhar com a doçura de um primeiro beijo, ali, no canto do mato limpo pelo seu carinho e adornado pelo seu amor? E o fato geológico, brutal, como um terremoto que se não esquece, inspira o poeta; a saudade, então, deixa de ser o “delicioso pungir de acerbo espinho”, que magoava docemente os avoengos… No Brasil, é “a terra caída de um coração que sonhou”…

Este cantor não se utiliza dos mirtos, das verbenas nem dos jacintos que nunca viu; suas flores são colhidas no ipê e no imbirussú. Não se aproveita das águias, nem dos condores, nem dos rouxinóis, que já tem visto… engaiolados; mas compara os gritos lancinantes de sua dor ao metálico explodir da voz de uma araponga. O sabiá é a sua “viola de penas”; o curiango, a jaçanã, o urutau, tipos das ornis do Brasil, esvoaçam nas suas produções.

Dele, nunca, ninguém dirá que é um poeta português, escrevendo no Brasil.

Seja qual for o juízo que se forme do idioma semi-bárbaro de que se ele serve, é preciso reconhecer que tal língua não morrerá. Há de ser polida, modificada pelas influèncias extranhas, que o progresso do país fará avultar; mas há de viver.

Quem escreve para o público, no Brasil, tem o dever de zelar pelas vozes clássicas, sem exageros anacrônicos, para cumprir uma missão frenadora, servir de elemento conservador, moderando a velocidade da vaga popular, conservando tradições. Mas não deve combater, senão aprimorar o formoso dialeto, áspero, como a maior parte da terra em que nasceu.

Ninguém, no Brasil, escreve como ele a língua da gente inculta, que é a maioria da nação; ninguém, como ele, sabe cantar ingenuamente a pátria, nos sons que por ela circulam.

Simples naturalista, estou aqui a falar do poeta, porque a poesia é como a luz. Uma desce do céu azul e penetra nos palácios e nas choupanas; lava os mares e as terras; espalha-se por sobre florestas e se derrama nos campos. A outra sobe da natureza inteira, e se exalça para ganhar o infinito. Rompe do solo, nos acidentes do terreno, que é vário, como a alma dos homens; nasce na existência diária de todos os seres vivos; sublima-se no sentimento do “grande escravo”, que se não move senão à custa de cega obediência a leis fatais. Ela entra na arte, para vivificá-la; na indústria, para dar-lhe brilho; e, na ciência, prestígio.

Esta poesia semi-bárbara me fascina, porque sinto, nela, as louçanias e as imperfeições da minha terra.

Este poeta foi o escolhido da sorte, para arquivar, no coro dos povos que cantam, a voz do seu próprio povo. Seus poemas estão escritos no lenho das grandes árvores, gravados nos penhascos da pátria; foram compostos com as harmonias reais deste meio natural dominador.

ROQUETTE PINTO.
(Da Academia de Letras)

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