“Nestas circunstâncias o beija-flor vem sempre aos milhares”
Este é o quarto Augusto. Avisou que vinha. Lavei os sovacos e os
pezinhos. Preparei o chá. Caso ele me cheirasse... Ai que
enjôo me dá o açúcar do desejo.
é aqui
por enquanto
ainda não tem
cortina
tapete luz indireta
amenizando a noite
quadro nas paredes
CIÚMES
Tenho ciúmes deste cigarro que você fuma
Tão distraidamente.
Abril/68
Tenho uma folha branca
e limpa à minha espera:
mudo convite
tenho uma cama branca
e limpa à minha espera:
mudo convite
tenho uma vida branca
e limpa à minha espera.
5.2.69
"A
poesia de Ana Cristina Cesar caracteriza-se por ser predominantemente
confessional, mas o tom de intimidade, não nos deve enganar, pois é
apenas um lance de sedução estética. A correspondência, realmente, como
apontou Armando Freitas Filho, teve bastante influência sobre a sua
dicção poética. Ela cria um verdadeiro jogo de linguagem: textos
curtos, poemas fragmentados, cartas, páginas de diário. A poesia
torna-se, desta forma, uma inquietante reflexão sobre o próprio fazer
literário".
"Assim percebemos que o texto-colagem da poeta instaura um sujeito estilhaçado, uma memória construída através da subjetividade fincada no corpo coletivo da linguagem. Seu método de composição baseia-se na apropriação incessante de versos e trechos de outros escritores que ela distorce, desloca, alude, readapta, reescreve, parafraseia e parodia. É uma obra que faz uma reflexão constante sobre a natureza do literário".
"Os poemas de Ana Cristina Cesar, inserida no clima da geração 70, revelam, entre as muitas características que marcaram a produção poética daquela época, as seguintes: atração pelo insólito do cotidiano; ênfase na experiência existencial num momento especialmente difícil da história e da política brasileira; volta à primeira pessoa, à escrita da paixão e do medo como caminho eficaz no sentido de romper o silêncio e a perplexidade que tomaram de assalto a produção cultural no início da década; o sentido de asfixia, experimentado no cotidiano, mas trabalhado com humor; valorização do coloquialismo; culto do instante, eixo fundamental da nova poesia e do binômio arte e vida. / O binômio arte e vida era a consolidação de uma visão de mundo que valorizava o aqui e o agora: a ideia do presente, eliminando a ideia de futuro."
Textos extraídos da excelente obra de Arminda Silva de Serpa "Lições sobre asas e abismos; uma leitura da poesia de Ana Cristina
Cesar", a partir de uma tese de doutorado. (Antonio Miranda)
Em TemPo:
O caderno
Ilustríssima do jornal Folha de S. Paulo que circula hoje, traz uma crônica do
editor da Folha Ilustrada desse mesmo jornal, Marco Augusto Gonçalves, onde ele
descreve parte de uma relação que manteve com essa poetisa. O primeiro poema
que encabeça os poemas publicados aqui neste blog foi feito pra ele.
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