Em entrevista concedida ao jornalista e blogueiro Josias de Souza,
o relator da CPMI do Cachoeira, o deputado federal Odair Cunha (PT-MG), dirime
toda e qualquer dúvida quanto ao seu papel de facilitador da vida do empresário
Fernando Cavendish, dono da empreiteira Delta Construções, que na opinião da
Policia Federal (PF) e da maioria expressiva dos integrantes dessa CPI - é o braço
construtor do esquema do empresário Carlos Augusto de Almeida Ramos, que os
petistas e aliados na sua CPI, dizem querer acabar com a sua quadrilha, mas que
o relator Odair Cunha está a envidar todos os esforços no sentido de postergar
o máximo e até mesmo evitar o depoimento do empresário pernambucano Fernando Cavendish.
Em tempo: o comando da CMI do Cachoeira é todo formado por petistas aliados do
governo federal que tem medo dessa CPMI.
Agora leia com muita atenção, essa entrevista concedida pelo
relator da CPMI do Cachoeira, o deputado federal mineiro ODAIR CUNHA, que tem nome e artista, mas não é artista é apenas um
político passado na casca do alho.
- Por que o sr. propôs o ‘sobrestamento’ das convocações de
Fernando Cavendish e Luiz Antonio Pagot? Mais adiante, se a investigação revelar que é
necessário, podemos ter a convocação dele. O que não quero é que a gente faça
convocações pirotécnicas. Não podemos admitir que seja criada uma cortina de
fumaça –mais que cortina, um oceano de fumaça— que desvie a atenção do
principal.
- O que é o principal? Temos uma organização criminosa, que tinha uma
atuação territorial importante. Estava muito fortemente impregnada no centro do
Brasil, em Goiás, com incursões fortes no Distrito Federal. Analisava ir para
outros Estados da federação como Paraná,
Santa Catarina, Mato Grosso e Tocantins. Há evidências dessa movimentação.
- O que seria a cortina de fumaça ou oceano de fumaça, para usar
sua expressão? De
repente, nós queremos investigar uma empreiteira no Brasil inteiro, todos os
contratos, de maneira ampla, geral e irrestrita. Isso é oceano de fumaça.
- Não teria sido adequado aprovar as convocações e condicionar a
data dos depoimentos à conveniência da apuração? Eu preciso analisar toda a documentação da Delta. A
partir dessa análise é que poderei tomar uma decisão. Em vez de encaminhar uma
votação para derrotar os requerimentos, preferi sugerir que fossem sobrestados
para permitir que analisemos os dados. Mais adiante, podemos tomar os
depoimentos se eles forem necessários.
- O senador Vital do Rêgo disse considerar a convocação de
Cavendish irreversível. Sua posição
parece ser diferente. Ele pode vir ou não? Exatamente.
- No início da CPI, seu plano de trabalho circunscrevia a
investigação ao Centro-Oeste. Depois, quebrou-se o sigilo da conta bancária da
matriz da Delta, no Rio. A investigação não se tornou nacional? Não havia restrição geográfica. Estamos investigando
uma organização criminosa, que tem uma base territorial muito definida em Goiás, com pessoas que dispõem de
prerrogativa de foro e que foram corrompidas e cooptadas. A profundidade dos
tentáculos dessa organização e os danos que ela causou à segurança pública no
Estado não são pequenos.
- Quando diz pessoas com prerrogativa de foro, assim, no plural,
refere-se ao senador Demóstenes e ao governador Marconi Perillo? Há deputados, secretários de Estado… Nós estamos
investigando. São pessoas que têm prerrogativa de foro e há indícios de
vínculos sociais, econômicos, políticos e negociais. Estamos procurando
elucidar esses vínculos.
- Em dado momento, o sr. manifestou-se favoravelmente à quebra do
sigilo bancário da Delta nacional, que acabou ocorrendo. Por quê? Admiti a quebra do sigilo da conta nacional porque
verifiquei que, ao quebrar o sigilo das contas da Delta no Centro-Oeste, não
identificamos o dinheiro. Os contratos, mesmo os que eram intermediados pelo
Demóstenes e pelo Cachoeira, mencionavam o CNPJ 001 [da matriz]. Os
recebimentos eram feitos nesse CNPJ 0001. Então, a quebra do sigilo nacional
foi necessária para desvendar a organização criminosa. Mas isso não significa
uma investigação de todos os contratos da Delta no Brasil inteiro. Isso levaria
ao que estou chamando de oceano de fumaça.
- Quer evitar que a investigação chegue aos contratos do PAC? Minha preocupação com isso é zero. Vamos investigar
onde a organização atuou. Se o Cachoeira influenciou na obtenção de contratos
do PAC, nós vamos investigar. Não tem problemas investigar esses contratos,
desde que tenham sido intermediados pela organização criminosa ou no interesse
dela.
- Em algumas CPIs anteriores, partiu-se da investigação de casos
específicos e chegou-se a algo mais amplo. A CPI dos Correios, por exemplo,
teve como origem o vídeo de um diretor de compras recebendo uma propina e
terminou no mensalão. No caso da CPI do Cachoeira, tem-se a impressão de que
também poderia evoluir para algo mais amplo. Não seria o caso de abrir o leque? Se abrirmos o leque, vamos salvar a turma do
Cachoeira. Tenho certeza disso.
- Por quê? Nós
não vamos conseguir descobrir os vínculos dessa organização que tomou conta de
boa parte do aparelho administrativo do Estado
de Goiás, infiltrou-se no aparelho de Estado do Distrito Federal e tinha o
projeto de ampliar sua atuação para outros Estados da federação. Isso está
intimamente ligado à questão de segurança pública, por exemplo. O índice de
homicídios em Goiás só aumentou.
- Não contempla a hipótese de a investigação esbarrar em outros
crimes? Se
eu encontrar indícios mínimos de outros crimes, posso fazer menção no meu
relatório. Mas antes de fazer menção no relatório final, identificando-se esses
indícios, vamos encaminhar para o Ministério Público e para a Polícia Federal.
Agora, fazer espetáculo no plenário da CPI e ficar levantando suspeitas sobre o
Brasil só serve para salvar a turma do Cachoeira.
- Os dados bancários que já chegaram à CPI permitem formular
hipóteses sobre a abrangência da investigação? O problema é que as informações são muito
inconsistentes. Vamos aproveitar essa próxima semana para irmos diretamente aos
bancos, para pedir maior consistência nos dados e informações padronizadas que
facilitem o trabalho de investigação.
- Mas essas informações não chegam à CPI depois de passar pelo do
Banco Central, que as padroniza? Não é assim. Por enquanto, a única conta que chegou
da Delta foi a do BMG e os dados estão confusos.
- Quando se determina uma quebra de sigilo, o pedido não é
encaminhado por meio do Banco Central? Sim, o pedido vai ao Banco Central, que informa aos
bancos que eles precisam enviar os dados. Os bancos mandam diretamente para
nós, não por intermédio do Banco Central. Por isso falta padronização.
- Quantas são as instituições que devem informações à CPI? Pedi para fazer esse levantamento. Na segunda-feira
devo ter isso.
- Quanto à convocação de Antonio Pagot, a hipótese de que venha a
ocorrer a partir de uma sugestão do relator é menor do que as chances de
convocação do Cavendish? Não
dá para dizer isso ainda. É preciso aguardar pelo avanço da apuração. Na minha
opinião, hoje, o Pagot foi mais alvo da organização criminosa do que
cúmplice dela. Isso, numa análise feita com base nos dados disponíveis. Mas
é preciso ir adiante. Não posso dizer nada sobre isso ainda.
- Então, a análise da conveniência de convocação do Cavendish e do
Pagot se equiparam? Exatamente.
Em relação ao Cavendish, se tivermos boa vontade com ele, podemos dizer que
foi, no mínimo, displicente com seus negócios. A Delta Centro-Oeste serviu
aos interesses da organização criminosa. Teve um contraventor como sócio.
Precisamos avançar para saber até onde isso chegou.
- O senador Jorge Viana (PT-AC) diz que essa CPI está fadada a
chegar ao caixa dois de campanha. Ele não vê outra finalidade para os repasses
feitos a empresas fantasmas da quadrilha senão a de financiar campanhas
políticas. Concorda com esse raciocínio? O que está no foco da comissão é a organização
criminosa. Isso inclui o caixa dois criado por ela. Não creio que eles só
faziam dinheiro para campanha. Essa história de caixa dois de campanha foi a
forma que a organização utilizou para ocupar o aparelho de Estado, financiando
políticos. Através do financiamento de campanha, criou-se uma fonte de poder
paralelo.
- Portanto, o tema caixa dois terá de ser tratado pela CPI? Entendo que sim. Mas não apenas esse tema. A Lei de
Licitações é outro tema que tem que ser tratado. Temos que buscar formas de
coibir essas iniciaitivas, fazendo com que o crime não valha a pena do ponto de
vista econômico.
- O TRF de Brasília analisa recurso que pede a anulação dos gampos
das Operação Monte Carlo, sob a alegação de que a investigação partiu de uma
denúncia anônima. O relator do caso, desembargador Tourinho Neto, votou a favor
da anulação. Que tipo de prejuízo uma decisão como essa traria para a CPI? Para a CPI, não haveria nenhum prejuízo. A CPI, como
comissão parlamentar de inquérito, não conduz ação penal. Essas provas são
essenciais na ação penal. Na CPI, estamos buscando provas que confirmem os
indícios de crime. Uma denúncia anônima, uma matéria jornalística ou uma prova
que a Justiça diga que é ilegal, tudo isso constitui para nós da CPI um
conjunto de indícios que servem para que a gente busque as provas.
- O presidente da CPI, Vital do Rêgo, disse ao repórter Fernando
Rodrigues considerar que a eventual anulação das provas fragiliza o trabalho da CPI, já que o
material recolhido pela PF não poderia ser usado no relatório final. Na sua
opinião, a CPI teria de desconsiderar os grampos? Entendo que não. Nosso caminho de investigação vai
continuar considerando esses áudios. No fundo, eles são indícios contundentes.
- Podem ser usados mesmo depois de declarados ilegais? Nós vamos usá-los. Eles são indícios. Se alguém liga
para nós e faz uma denúncia anônima, a partir dessa denúncia, vamos buscar
fatos que a confirmem ou não. Com os grampos ocorre a mesma coisa. São
indícios. Precisamos buscar as provas que os confirmem.
- Está diferenciando o procedimento político do judicial? Diferencio o procedimento político, que se encontra
numa fase comparável à de um inquérito, do processamento de uma ação penal. No
nosso caso, integramos uma comissão política com poderes de realizar um
inquérito. Nessa fase, mesmo que as interceptações telefônicas sejam
consideradas legais, elas precisam ser corroboradas por outras provas.
Sozinhas, elas não são provas cabais. Temos que buscar outras provas que
confirmem os eventos apontados nas interceptações. Então, utilizando-as como
indícios, nós vamos buscar essas outras provas. Suponha que, numa das
interceptações, fulano diga que está repassando dinheiro para beltrano. Eu
preciso encontrar esse dinheiro numa conta ou obter uma confissão. Temos que
buscar provas. Se as provas forem declaradas nulas, o que a Justiça não pode
mais fazer nós podemos.
- Nesse particular, o sr. está falando uma língua ligeiramente
diferente da do presidente Vital do Rêgo, não? Trabalhamos de forma muito afinada. Não conversamos
sobre esse tema ainda. São compreensões jurídicas.
- Em relação ao cronograma, trabalha-se com a perspectiva de
prorrogar a CPI? Não.
Vou entregar o meu relatório em novembro, como previsto. Obviamente, é preciso
ter a clareza de dizer que a investigação é que vai dizer se isso será ou não
possível.
- Considerando-se o estágio atual, sua opinião é a de que não se
configura um quadro de prorrogação da CPI? Entendo que isso ainda não está configurado.
- Verifica-se na comissão que as maiorias são ocasionais. Mudam
conforme o tema sob análise. Acha que vai dispor de maioria para impor a sua
linha e o seu cronograma? Acho
que isso vai se impor como necessário. Se nos desviarmos do nosso rumo, vamos
criar esse oceano de fumaça a que me refiro e essa quadrilha que se instalou em
Goiás, em boa parte do Distrito Federal, com muitos interesses ocultos
vai sair ilesa. Isso já está acontecendo.
- Como assim? O
voto do desembargador favorável à anulação das provas é o caminho para isso no
âmbito do Judiciário.
- Mas isso independente da CPI, não? Isso, de fato, independe de nós. Mas validar os
indícios por meio da obtenção de provas só depende de nós.
- O que achou da manifestação do deputado Miro Teixeira a respeito
da presença de uma tropa do cheque na CPI? Ele tem que apontar os nomes ou os indícios que ele
tem sobre isso. É inadmissível que se levante suspeita generalizada.
- Verificou-se que duas pessoas, o senador Ciro Nogueira e o
deputado Maurício Quintella Lessa estiveram com Cavendish em Paris. Vou esperar a manifestação deles para poder me
pronunciar sobre isso. Prudência e caldo de galinha não fazem mal para ninguém.
Em
TemPO: Nesta entrevista fica bastante evidente o direcionamento dos
trabalhos da CPMI do Cachoeira, para minimizar a participação da Delta Construções
e do seu dono, o empresário Fernando Cavendish no escândalo Cachoeira e circunscrever
a ação de Carlinhos Cachoeira ao Centro-Oeste. Isso fica bastante evidenciado
nessa afirmação que segue, do relator da CPMI o deputado federal Odair Cunha
(PT-MG): “se tivermos boa vontade com ele, podemos dizer que foi, no mínimo,
displicente com seus negócios”. Segue outra frase bastante emblemática de
Odair Cunha: “o Pagot foi mais alvo da organização criminosa do que cúmplice
dela. Com essas declarações o deputado relator deve ser considerado
impedido de continuar na relatoria dessa CPMI.
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