sexta-feira, 2 de outubro de 2015

O crime da ULEN e a inocência de José Ribamar



Os ianques da empresa Ulen já desembarcaram no porto de São Luís demonstrando toda a sua prepotência, esbanjando como nababos o dinheiro tomado à gente explorada de outros países.

Em uma tarde, Ann, mulher do administrador geral da Ulen, Harry Isler, penetrou irregularmente na reserva florestal de Sacavem para caçar cutias e perdizes. De repente, percebeu um vulto atrás de uma andiroba. Não hesitou. Fez pontaria e disparou a Winchester de dois canos. Quando o pobre guarda-florestal gritou, era tarde. O proletário se esvaía em sangue com uma chuva de chumbo grosso espalhado por sua pele negra, entre a nuca e o ombro.

Mais tarde, na delegacia, do depoimento da ilustre Ann Isler, ouviu-se:

— Juro que parecia um macaco!
II
Era 1920. Na capital do Maranhão o povo se desesperava com os bondes puxados a burro. Além dos constantes atrasos, os animais empacavam. À noite, nenhuma iluminação pública.

O comandante José Maria Magalhães de Almeida, genro do governador Urbano Santos, entendeu de equacionar toda a questão, dos bondes à embalagem do algodão fabricado no Maranhão. Para isso, foi se entender com o advogado ianque Henry Charles Ulen.

O advogado fundara na Broadway a Ulen & Co. destinada a fazer trapalhadas de projetos governamentais, incluindo agenciamento de empréstimos da Bankers Trust Company. Logo o povo maranhense — sem luz, sem saneamento, bebendo água de mananciais poluídos — passaria a ouvir que um "milagre americano" fora encomendado por Urbano Santos, o que só aconteceria na administração seguinte, a de Godofredo Viana, em 26 de março de 1923.

Os ianques fizeram um empréstimo externo de US$ 1, 5 milhão, com a intermediação do governo estadual. Logo veio outro, no valor de 2,5 milhões de contos de réis, concedido por empresários da capital maranhense para a conclusão dos serviços de água, esgoto, luz e tração.

O governo transferiu para os banqueiros o valor referente ao pagamento dos juros e da amortização do empréstimo, comprometendo assim quase 40% da receita estadual. Pior, o contrato dava à Ulen plena isenção de impostos e a incumbia de fazer todo o necessário à execução dos serviços, debitando as despesas ao governo do Maranhão.
III
A Ulen entregou as obras seis meses antes do prazo, em 1º de maio de 1923, e inaugurou o serviço de bondes elétricos em 30 de novembro de 24.

Passadas as festividades e a euforia, surgiu um sério problema: a Ulen cumprira o prazo, mas era preciso montar a administração daquela estrutura. Para tanto, o governo maranhense contratou no USA, em 9 de agosto de 1923, a Brightman & Company Incorporation.

Com total isenção de impostos, os ianques administrariam, pelo prazo de 20 anos, o abastecimento de água e esgoto; o fornecimento de energia; os bondes e a embalagem do algodão. O governo estadual assumiu todos os custos da administração, inclusive despesas do escritório da Brightman cuja remuneração mensal seria de 10% da renda bruta estimada. Havendo prejuízo, o governo cobriria o deficit.

Os ianques imediatamente se puseram a apresentar seguidos déficits de caixa. O governo cobria. A quantidade de bondes em circulação ficava muito abaixo do necessário. A massa, indignada, enchia as praças para repudiar os serviços e os constantes aumentos de tarifas.
IV
Encurralado pelo povo, Godofredo Viana argumentava que nada podia fazer porque, no caso de rompimento unilateral do contrato, que os próprios entreguistas haviam assinado, o estado sujeitaria-se a multas elevadíssimas e uma "indenização de 50% da remuneração do último ano fiscal, multiplicada pelos anos que faltarem para o término do contrato".

Em 1º de março de 1926, José Maria Magalhães de Almeida, que era um amigão da Ulen, assume a Presidência do Maranhão.

A empresa foi chamada de volta, agora empreiteira de porte graças aos cofres públicos do Maranhão, e que não gostava mesmo de administrar as obras executadas. Para tanto, ela revelou que tivera novamente uma brilhante idéia — a de criar uma subsidiária, a Ulen Management Company.

Então, no 1° de abril de 1926, o contrato entre a subsidiária e o Maranhão foi assinado.

Bastaram 30 dias decorridos da posse ao contrato para que representantes da Brightman, reunidos em Nova York com a Ulen Management, abrissem mão da indenização de 2,2 milhões de contos de réis — mas cedendo à nova empresa (a tal subsidiária) as percentagens, adiantamentos e demais direitos, conforme brilhante idéia. Para quitar a "dívida", Magalhães mais uma vez recorreu a empréstimos do Bankers Trust. Como intermediadora, por coincidência, estava a Ulen.

Em seguida, foram assentadas as bases de boas idéias com um novo contrato cuja validade seria de 20 anos, num total de 236 mil dólares. O Governo pagaria os salários do administrador Harry Isler e demais empregados procedentes do USA, comprometendo-se também a não realizar nenhuma "intervenção direta de fiscalização junto à Companhia".

Mas, até as máquinas de embalar algodão eram obsoletas. Faltava água, luz e, da prometida rede de esgotos, parcos vestígios. Em 1927 a indignação adormecida voltou a sacudir São Luiz. O povo, nas ruas, cobrava as promessas não cumpridas, repudiava os constantes aumentos das tarifas e exigia o fim da exploração da empresa ianque.
V
Em 1930, eclode a Aliança Liberal, ainda um movimento burguês de velho tipo. No Maranhão, foram afastados os antigos grupos políticos. Os magalhãesistas; marcelinistas e tarquinistas cederam lugar aos revolucionários locais.

José Luso Torres, José Maria Reis Perdigão e Astolfo Serra, que pregavam abertamente o rompimento do contrato com a Ulen, foram constituir a Junta Governativa. O gringo Harry Isler, administrador da Ulen, tinha ajudado a organizar os "batalhões patrióticos" que sabotavam a revolução. Com a prisão decretada, Harry foi levado em desfile pela cidade até à cadeia.

A prisão, no entanto, não durou 24 horas. A embaixada do USA declarou que o prisioneiro era agente consular na capital maranhense. Reis Perdigão foi ao Rio de Janeiro com a finalidade de obter do Ministro da Justiça a rescisão do contrato com a Ulen, mas a embaixada ianque exigia a manutenção da empresa.

Oswaldo Aranha, ministro da Justiça, vergonhosamente proclamava que o capital estrangeiro era de grande auxílio para o país, e a quem se devia "grande parte do nosso progresso". No dia 10 de fevereiro de 1931, a Ulen voltava às suas atividades, mais poderosa do que nunca.
VI
Em 30 de setembro de 1933, após ter sido demitido injustamente, quando faltavam apenas alguns dias para completar dez anos de serviço, o bilheteiro da estação de bondes José de Ribamar Mendonça executa a tiros o contador da Ulen Management, John Harold Kennedy — membro de uma família de notórios contrabandistas, cujos "sobrinhos", um bando de assassinos, governariam o USA na década de 60. Além do mais, o gringo se recusava a pagar ao empregado a indenização estabelecida por lei.

Para o povo oprimido e humilhado por serviços de péssima qualidade, a atitude de José Ribamar serviu como uma espécie de vingança popular.

Em 21 de novembro — 60 dias após a morte do bandido ianque — José Ribamar foi a julgamento. Uma das teses dos advogados da Ulen buscou criar a imagem de que José Ribamar tinha propensão ao crime, é que ele havia tomado parte na manifestação popular Tambor de Crioula. O povo de São Luiz respondeu imediatamente ao insulto.

Por outro lado, no Tribunal, a cada intervenção do advogado de defesa José Joffily, o povo que lotava o Fórum aplaudia alucinadamente, gritando o nome do réu. O advogado de Ribamar lançou sobre ele a bandeira brasileira e o julgamento se transformou num grande movimento antiimperialista em São Luiz.

O advogado registrou que "entre o povo e a Ulen, erguia-se — tijolo por tijolo — um muro de antipatia que a cada dia se tornava mais inflamável". A execução ultrapassou suas fronteiras e ganhou contornos bem mais amplos. Era como se o gesto de Mendonça fosse a resposta dos maranhenses aos crimes cometidos pelos estrangeiros opressores do povo. Os jurados decidiram pela absolvição de Mendonça. A diplomacia ianque ainda tentou por duas vezes a condenação do réu, porém seus esforços foram baldados.

Em 1945, com o fim da ditadura varguista e a vitória de Dutra nas eleições presidenciais, Vitorino Freire, gozando de grande prestígio junto ao presidente de República, foi decisivo na designação de Saturnino Bello para interventor estadual.

Em 16 de fevereiro de 1946, logo ao assumir, Satu, como era conhecido no meio político, deixou clara sua intenção de romper o contrato com a Ulen, mas que todo cuidado era pouco. Uma nova crise diplomática não convinha principalmente devido à situação do pós-guerra.

Uma comissão nomeada pelo interventor considerou que a relação custo-benefício apresentou uma defasagem discrepante em relação ao que o Estado pagava à concessionária. A avaliação, somada à influência de Vitorino Freire no Palácio do Catete, deu a Satu subsídios suficientes para banir definitivamente a Ulen do Maranhão. Assim, a 15 de junho de 1946, deram-se por encerradas as atividades da empresa ianque em São Luís, a despeito dos esforços de três embaixadores e 38 ofícios diretamente de Washington para mantê-la aqui. (A.F) Fonte: Nova democracia  


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