quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Remédio 'comum' pode salvar da morte vítimas de escorpiões




Picadas de escorpião são a maior causa de acidentes com animais peçonhentos no Brasil, segundo o Ministério da Saúde. Em Ribeirão Preto foram 261 vítimas em 2015, sem nenhuma morte, segundo a Secretaria da Saúde. As vítimas dessas picadas apresentam reação local ou sistêmica, que pode evoluir para edema pulmonar, com chance de levar à morte, principalmente, crianças e idosos.

Pesquisadores da USP de Ribeirão Preto desvendaram o mecanismo que leva ao edema pulmonar e sua relação com os mediadores lipídicos (substâncias produzidas pelo sistema imunológico ante o ataque de um corpo estranho) e com a interleucina 1β (IL-1β). A descoberta levou o grupo a tratar o edema pulmonar com anti-inflamatório comum, existente no mercado, e salvar 100% dos animais inoculados por escorpião. Esses resultados abrem caminho para salvar a vida de cerca de três mil pessoas que morrem envenenadas por escorpião por ano ao redor mundo, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS).

O artigo Opposing roles of LTB4 and PGE2 in regulating the inflammasome-dependent scorpion venom-induced mortality, descrevendo esses resultados foi publicado na edição de hoje, 23 de fevereiro, da Nature Comunications, versão online de uma das mais importantes edições científicas do mundo.

Os antagonistas do processo

Ao identificar que dois mediadores lipídicos, as prostaglandinas e os leucotrienos, são responsáveis pela regulação da ativação do inflamassoma, estrutura essencial para a ativação da resposta inflamatória, os pesquisadores também descobriram que esses mediadores têm papéis antagônicos na regulação dessa inflamação.

“Enquanto a prostaglandina E2 (PGE2) aumenta a produção da IL-1β [molécula formada pela ativação do inflamassoma], o leucotrieno B4 [LTB4] diminui a produção dessa molécula”, na verdade, buscando equilíbrio no sistema de defesa. É o que revela a professora Lucia Helena Faccioli, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP) da USP e orientadora do estudo.

Com essas informações, os pesquisadores identificaram também que no envenenamento por escorpião se não acontecer a regulação da ativação do inflamassoma pelo LTB4, há um aumento exagerado de PGE2 e de IL-1β. “Quando isso ficou claro, começamos a tratar os animais com um anti-inflamatório comum, já existente no mercado, que inibe a produção de prostaglandinas. Com isso conseguimos reduzir o edema pulmonar e 100% dos animais sobreviveram”, diz Karina F. Zoccal, aluna de pós-doutorado da FCFRP e principal autora do estudo publicado.

Outro aspecto interessante encontrado nos estudos, diz a professora Lucia, é que a ciência conhecia o LTB4 como uma molécula inflamatória, mas nossos resultados indicam que este lipídeo também tem um papel anti-inflamatório. “Esses resultados também abrem caminhos para estudos de outras doenças provocadas pela inflamação”. Fonte: USP
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