segunda-feira, 31 de maio de 2010

A origem da paixão de Lula por Sarney

Não sei bem se o título do post deveria ser esse mesmo, visto que a relação entre o presidente Lula e o ex-presidente Sarney é tão pragmática que a palavra “paixão” fica até sem sentido para caracterizar a aliança que os dois ex-desafetos gozam já há algum tempo.

Revirando “um monte de papel velho” - como diz Karla- na minha escrivaninha, encontrei dois datados de 1997 que me chamaram a atenção.

O primeiro foi a minha portaria de nomeação ao cargo de secretário de Administração e Finanças da Prefeitura de Santa Rita, durante a gestão de ex-petista Padre Oswaldo; o segundo foi um artigo publicado no dia 13 junho de 1997, de autoria do senador José Sarney, que revela o quanto é astuto o velho presidente do Senado.

O artigo de Sarney foi escrito em meio a saraivada da imprensa em cima do então líder da oposição Luis Inácio Lula da Silva. O motivo da execração pública foi o “escândalo” que descobriram:Lula morava no apartamento do compadre Roberto Teixiera.

Depois vieram as denúncias de Paulo de Tarso Venceslau, ex-secretário de Finanças da prefeitura de São José dos Campos, dando conta de haver um esquema de corrupção em várias prefeitura da grande São Paulo, na época administradas pelo PT.

Foi no bojo desse martírio de Lula e do PT, que entra em cena Zé Sarney com seu artigo, uma espécie de “salvo-conduto” ao petista. Logo ele, Sarney, histórico adversário político de Lula e do PT. O artigo causou tamanho impacto que o ex-deputado José Dirceu, entáo líder do PT na Câmara e presidente nacional do PT, foi até ao gabinete do Sarney para agradecer o gesto do senador amapaense.

Não foi o arquivamento da CPI do Waldomiro Diniz ou o completo apoio ao governo Lula durante o escândalo do Mensalão que fizeram de José Sarney um “quindim” para o presidente da República. Esses episódios apenas consolidaram o poder de Sarney no atual governo e a sua relação fisiológica com o mesmo. Foi o artigo “A Lula o que é de Lula” a origem da “paixão” do petista pelo peemebista. Sarney sabia que um dia Lula seria presidente do Brasil. Acertou.

Abaixo, a íntegra do artigo do senador José Sarney.

A Lula o que é de Lula

Eu sempre tive absoluta incapacidade de guardar ressentimentos e de ser injusto ou devoto de Adrasteia, a deusa da vingança.

O PT foi sempre muito duro comigo e muitas vezes teve uma leitura errada de meu governo que, diga-se de passagem, foi o período que abriu espaços para ele crescer, chegando a disputar a Presidência da República, quase chegando lá, com um candidato que, por mais que dele discordassem, ninguém lhe podia negar a biografia extremamente comovente, de um retirante do Nordeste, com curso primário incompleto, torneiro mecânico, trabalhador de macacão que, pelas suas qualidades de liderança, assumiu uma posição de comando do movimento trabalhista, o Luís Inácio Lula da Silva.

Não quero discutir suas idéias políticas, embora muitas delas possamos aprovar. Quero dizer do massacre, muitas vezes insincero, com que agora vem sendo ressuscitado um episódio de há muito batido, justamente para atingi-lo numa gangorra de compensação na temporada de denúncias que atravessamos.

O país tem que aprender a preservar os seus homens públicos naquilo que eles têm de mais exemplar, que é sua vida. Não se trata de dar carta de imunidade a ninguém, mas não se pode, só porque o Lula é um líder de esquerda, aproveitar-se de sua notoriedade para, à custa dela, criar um escândalo de pastel de vento. Lula mora numa casa de um compadre, e dizem ele tinha de morar numa casa paga pelo partido. Qual a diferença, sob o ponto-de-vista ético, de uma coisa ou outra.?

O fato mais importante seria o de dizer que um homem com a sua projeção não tem casa para morar.

É uma história muito estranha acreditar que um homem que atravessou tantas lutas fosse utilizar de seu prestígio junto a prefeituras a fim de ajudar o PT. Seria uma decepção para o país que nele vê um símbolo do que temos de melhor das nossas práticas, um país democrático, que não discrimina ninguém e oferece a todos oportunidades de participação e ascenção. Qual a democracia no mundo ocidental que pode dar esse exemplo que nós damos com a liderança do Lula? Considero um dos pontos altos do meu governo ter derrubado as barreiras de separação existente entre trabalhadores e patrões. Todos passaram a ter o status de cidadão e desde então vivemos uma sociedade verdadeiramente democrática. E um dos exemplos mais claros e didáticos foi o êxito da candidatura Lula nas eleições de 1989.

No meio de tantas denúncias e de tantos casos escabrosos, de um Presidente que tem decretada a perda do cargo por impeachment, de deputados que são cassados por conivência e cumplicidade de seus deveres com práticas criminosas, de falências fraudulentas, de fantasmas bancários, das ilegalidades na colocação de títulos públicos destinados a pagamento de precatórios, é estranho que venham crucificar um adversário pelo fato de não ter uma casa para morar.

Como seu adversário, tenho mais autoridade para dizer que não estou sendo condescendente com Lula, mas não posso, até mesmo pela isenção, coerência e equilíbrio com que pautei minha ação política, sem nunca agredir ninguém, juntar-me à hipocrisia de sua crucificação. (blog do Roberto Lobato - JP)

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