domingo, 15 de julho de 2012

Entrevistão: ‘Outra pessoa’, Iziane leva sua montanha-russa rumo a Londres


Ala da seleção de basquete admite tropeço em 2008, mas se diz madura  para subir de novo e buscar uma medalha em seu retorno às Olimpíadas

Por Rodrigo Alves Jundiaí, SP (G1)

Quando Iziane pisou em solo olímpico pela primeira vez, em Atenas-2004, o penteado ainda exibia tranças daquelas que dão um trabalhão para fazer. A ala tinha 22 anos e, de lá para cá, muito vento passou por aqueles cabelos. Hoje eles estão alisados, presos num curto rabo-de-cavalo, mas as mudanças vão muito além da aparência. Durante quase uma década, a jogadora se lançou numa montanha-russa. Subiu até o topo e chegou a ser considerada o nome ideal para tocar o barco do basquete feminino após as saídas de Hortência, Paula e Janeth. Desceu em queda livre quando se recusou a entrar em quadra numa partida do Pré-Olímpico de 2008 e, com o rótulo da insubordinação colado na testa, não foi a Pequim. 


Voltou a subir lentamente, reencontrou raízes ao trocar a WNBA pelo Maranhão, e agora se diz pronta e madura para voltar ao palco mais nobre do esporte mundial. Vestindo a mesma camisa amarela que já lhe rendeu um bocado de alegria e outro tanto de polêmica.


Na noite da sexta-feira 13, Iziane e mais 11 jogadoras embarcaram para os Estados Unidos, já com a cabeça em Londres. Após o amistoso contra as americanas, elas partem para a Europa e ainda disputam um torneio preparatório antes da estreia olímpica, no dia 28, contra a França. A jornada sob comando do técnico Luís Cláudio Tarallo, em Jundiaí, no interior paulista, rendeu mais de 70 dias de treino em clima de paz. Dentro da quadra, a ala chama o jogo, mas fala pouco. Conversa ao pé do ouvido com uma, orienta outra, mas basicamente trabalha em silêncio.

Já apareceu o bastante em 2008, quando descumpriu ordem do treinador Paulo Bassul no jogo contra a Bielorrússia e pagou caro. Não só com a ausência em Pequim, mas com a fama de rebelde que a persegue até hoje. O retorno a São Luís na última temporada, para disputar a Liga de Basquete Feminino pelo time que criou em sua cidade natal, ajudou a acalmar os ânimos. Hoje ela diz ainda não entender o tamanho da repercussão do episódio há quatro anos, mas, em todo caso, garante que mudou e amadureceu.

No papo com o GLOBOESPORTE.COM após o penúltimo treino em Jundiaí antes do embarque para os EUA, a jogadora de 30 anos e 1,82m admite o tropeço em 2008, mas se diz pronta para virar a página e puxar o ataque brasileiro rumo ao pódio em Londres.



GLOBOESPORTE.COM: Disputar as Olimpíadas não chega a ser novidade para você, mas já se vão oito anos desde sua última participação. O retorno te deixa nervosa?
IZIANE: O frio na barriga não é nem pelo fato de ser Olimpíadas, mas toda vez que a gente veste a camisa da seleção dá esse friozinho. É uma responsabilidade. O povo brasileiro é tão carente de vitórias, e se a gente parar para pensar, é muita coisa. É isso que eu sinto, mais do que tudo. Lembro de Atenas, de como é legal. Você compartilha um grande momento esportivo com todo mundo. Dá para assistir às competições, mas vale até ficar sentada lá na Vila Olímpica, com todo mundo junto, torcendo pelo Brasil, para o quadro de medalhas ficar bom.

De 2004 até agora, muito aconteceu. O que mudou na Iziane nestes oito anos?
Muita coisa. São oito anos que se passaram, e eu amadureci com eles. Vivi muitas coisas, joguei em muitos lugares. Hoje sou uma jogadora mais experiente e uma mulher mais experiente. Sou outra pessoa. A gente muda, a gente aprende. O tempo passa e a gente vai evoluindo.

Com essa nova Iziane, o que dá para esperar da seleção em Londres? Na sua cabeça existe a meta da medalha?
Com certeza. Hoje a diferença que existe entre as seleções é um jogo, um momento. Nós estamos fazendo por onde, queremos ter esse momento a nosso favor. Treinamos mais de 70 dias, melhorando o que tem de ser melhorado para chegar lá e dar o que o Brasil precisa para ganhar essa medalha. Não estamos só desejando, estamos nos preparando. A equipe americana ainda é superior, mas as outras estão muito iguais. É questão de jogo, de momento. Você tem que estar bem e levar a melhor.

Você tem a noção de que todos os olhos vão estar em cima de você?
Sim. Até nas conversas com o Tarallo, ele já colocou isso para mim, ele quer que eu tenha um papel no sistema ofensivo, sendo uma jogadora que define mais e chama o jogo nos momentos mais importantes. Sei da minha responsabilidade, mas sei que é um grupo e todo mundo tem que dar o seu melhor. Não vamos ganhar só com uma, duas ou três jogadoras. Vamos precisar de todas. Os Estados Unidos, por exemplo, têm 12 jogadoras no mesmo nível, que podem rodar à vontade. A gente não pode se dar ao luxo de uma não contribuir durante uma partida.



Essa vontade de estar em quadra nos momentos importantes chegou ao extremo naquele episódio de 2008, quando você se recusou a voltar no fim do jogo contra a Bielorrússia, no Pré-Olímpico mundial. Olhando para trás, você faria diferente ou ainda acha que aquilo foi certo?
Não, eu nunca achei que foi certo. Foi uma atitude de emoção daquele momento, mas nunca achei que foi uma atitude certa. É lógico que, quando recordo tudo que aconteceu, penso: “Nossa, por que tudo isso?”. Eu não imaginava. E como eu não estava no Brasil depois daquele torneio, nem vivenciei tudo isso, né. A repercussão foi só de um lado, porque eu não estava aqui.

Você tem ideia da imagem negativa que passou para a torcida?
Com certeza, porque só viram um lado da história, o outro lado não estava aqui para se defender. Então só se bateu em uma tecla. A mídia colocou o que dá ibope, mas a história foi outra, porque não houve nada além daquele momento ali. Nunca houve falta de respeito com ele (o então técnico Paulo Bassul), briga, nada disso. Foi só aquilo no jogo.

As críticas te incomodam? Você costuma ler o que sai na imprensa?
Não. Eu não ligo, não leio, não me importa. Nestes anos, eu aprendi a saber qual é o meu valor e tirar proveito apenas do que me faz crescer. O resto nem passa por mim.

Hoje você parece se dar muito bem com o treinador da seleção, o Luís Cláudio Tarallo, que já trabalhou contigo. Como tem sido o convívio?
Muito bom. O principal do Tarallo é que ele traz para este grupo uma característica do Brasil que ficou um pouco para trás, que é ser um time rápido e ofensivo. A gente se sempre se deu bem jogando assim e perdeu um pouco isso nos últimos anos. O grupo também facilita esse estilo, e ele traz isso para a filosofia de trabalho dele. É claro que, sendo um técnico que já treinou todo mundo aqui, fica muito mais fácil. São 72 dias de treinamento, então não temos do que reclamar.

Em outras oportunidades você se apresentou em cima da hora e não pôde treinar com o grupo desde o início, como fez agora. Isso faz diferença?
Muita. É muito importante todo mundo estar à disposição para o trabalho que a comissão técnica se dispôs a fazer. Até para avaliar se deu certo ou não, o que precisa mudar. A equipe deu um salto de qualidade muito bom. E ajuda muito no entrosamento. Apesar de eu já ter jogado com muitas dessas atletas, outras são mais novas, então acaba sendo fundamental.



Seu processo de mudança também incluiu um retorno às raízes, no ano passado, quando você voltou a morar em São Luís e jogou a liga nacional pelo Maranhão. O reencontro com a sua casa te ajudou a amadurecer?
A amadurecer, não. Acho que eu já atingi o amadurecimento da minha carreira. Dizem que o atleta chega lá entre os 28 e 32 anos, e acho que eu estou lá. O mais importante desse retorno foi sentir o carinho e o orgulho do meu povo. Eu montei essa equipe sem saber o que esperar. Eles apoiaram de coração, e isso foi muito importante para o basquete feminino. É muito legal sentir esse carinho.

E a família, o que achou de você ter voltado após tanto tempo fora?
Ah, a família e os amigos gostaram muito. Até o pessoal que era do esporte, que ia aos jogos, todo mundo achou legal a iniciativa, porque não foi uma coisa só para o basquete, foi para o esporte em geral. Todo mundo estava torcendo, se reencontrando, confraternizando.
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