Entre o estrondo provocado por pancadas em panelas– uma forma de
protesto popular em alguns países de língua espanhola – e o cordão policial em
volta, cerca de cinco mil venezuelanos, na sua maioria mulheres,
manifestaram-se neste sábado no centro de Caracas em protesto contra o Governo
de Nicolás Maduro e a escassez de alimentos e bens de primeira necessidade num
país que tem as maiores reservas de petróleo do mundo.
“Não
há, não há, não há”, podia ler-se num dos cartazes agitados pela multidão,
segundo a AFP, no “Protesto das panelas vazios”. As manifestações contra o
Governo têm sido diárias na Venezuela desde há um mês e as tensões já
resultaram em 21 mortos, pelo menos 300 feridos e cerca de mil detenções.
O Governo mobilizou centenas
de agentes das forças de segurança para impedir a concentração dos
manifestantes junto ao Ministério da Alimentação, convocada pela Mesa de Unidad
Democrática (MUD), uma coligação de partidos que se opõem ao Presidente Nicolás
Maduro. Segundo a AFP, houve por vezes tensão entre os manifestantes e as
forças de segurança no local, mas, depois de uma negociação, polícia e
militares aceitaram afastar-se uns metros para abrir mais espaço à multidão.
“Toda esta mobilização militar demonstra o grande medo que
Nicolás [Maduro] e o seu Governo têm dos protestos contra os problemas sérios
que afetam os venezuelanos”, disse a principal líder da oposição, Henrique
Capriles, um governador estadual que foi derrotado por Nicolás Maduro, herdeiro
político de Hugo Chávez, com uma margem residual de 1,5 pontos percentuais de
votos nas eleições presidenciais de Abril de 2013.
Outras manifestações tiveram
lugar noutras cidades do país, mas nenhum canal de televisão transmitiu
qualquer imagem das mesmas.
A inflação atingiu os 56% na
Venezuela, um país onde encher o depósito de combustível do carro custa apenas
alguns cêntimos de euros. Mas encontrar farinha, leite, arroz, açúcar, papel
higiênico ou peças para automóvel é um desafio. Os venezuelanos passam horas em
filas no supermercado à espera de abastecimentos, muitas vezes antes de
amanhecer, sem saber o que conseguirão comprar.
“Não há nada para comprar. Só
se pode comprar o que o Governo deixa entrar no país porque tudo é importado.
Carne de gado não há. Nem frango”, disse à AP uma das manifestantes em Caracas,
Zoraida Carrillo, 50 anos.
Outro motivo que está por trás
das tensões das últimas semanas é a insegurança – a Venezuela é o quinto país do
mundo com o índice de criminalidade mais alto. A onda de protestos que tem
abalado o país foi desencadeada por estudantes no início de Fevereiro, para
contestar o nível de insegurança que se faz sentir em muitos centros urbanos,
depois de uma estudante ter sido supostamente estuprada.
“Vamos transformar este
protesto no maior movimento social da história deste país”, disse este sábado
Henrique Capriles, dirigindo-se aos manifestantes na capital venezuelana,
muitos deles munidos de panelas vazias simbolizando a escassez de alimentos,
segundo a BBC.
Por sua vez, o Presidente do
Governo “socialista”, Nicolás Maduro, celebrou como uma vitória diplomática uma
declaração de apoio da Organização dos Estados Americanos (OEA), em Washington,
que se refere aos seus esforços para acabar com as manifestações que abalam
esse país há um mês. Estados Unidos, Canadá e Panamá foram os únicos a opor-se
à declaração, votada favoravelmente por 29 países.
Numa entrevista por telefone
com a televisão pública venezuelana na sexta-feira à noite, o ministro dos
Negócios Estrangeiros, Elias Jaua, disse que a declaração representa uma
vitória para a América Latina e para o Caribe. O porta-voz do Governo, Delcy
Rodriguez, escreveu no Twitter: “A minoria intrometida contra a Venezuela na
OEA, Panamá, Canadá e os EUA, é derrotada numa decisão histórica que respeita a
nossa soberania.”
Fonte: Mundo P
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