domingo, 5 de junho de 2016

Êh, meu boi: “Mamãe eu vi Boi da Lua dançar no planeta do Brasil”






Fatima Oliveira *


Busco arrego em Guimarães Rosa: “O mundo é mágico. As pessoas não morrem, ficam encantadas”. Papete (José de Ribamar Viana) virou encantado em 26.6.2016. “Mamãe eu tô com uma vontade louca/ De ver o dia sair pela boca/ De ver Maria cair da janela/ De ver maresia /Ai maresia... Bandeira de aço/ Bandeira de aço...” (César Teixeira).

Papete foi meu conforto mental naquilo que a filosofia rosiana diz que “viver é um rasgar-se e remendar-se”. Papete foi um ombro amigo de travessia. E travessia é travessia, pois “o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia” (Guimarães Rosa).

Fora do Maranhão por quase 30 anos, tive a companhia fiel de Papete e ninei filharada e netaiada com seu disco “Bandeira de Aço” (1978), bem cultural imaterial do Maranhão – que, para Flávio Paiva, “é um trabalho essencialmente inoxidável, em seu caráter anímico, zoomórfico e arquetípico, de sotaque de orquestra, matraca, zabumba e viola... Parte da trilha sonora do Brasil profundo” (“Bandeira de Aço”, 2013).

Aqui, em casa, as músicas de “Bandeira de Aço” são acalantos! Sabemos acompanhar “Boi da Lua”: “Meu são João.../ são João, meu são João/ Eu vim pagar a promessa/ De trazer esse boizinho/ Para alegrar sua festa/ Olhos de papel de seda/ Com uma estrela na testa... Chora, chora/ Chora boi da lua vem pedir uma esmola/ Pra aquela boneca de anil/ Mamãe eu vi boi da lua/ Dançar no planeta do Brasil” (César Teixeira).

“Engenho de Flores” alumbra: “Ê alumiô, toda terra e mar/ Ê alumiô, toda terra e mar/ Eu vi fortaleza abalar/ Eu vi fortaleza abalar/ Agora qu’eu quero ver/ se couro de gente é pra queimar (bis)/ Vou pedir pra são João/ Cosme e Damião/ Pra nos ajudar...” (Josias Sobrinho).

Clarinha, que teve a honra de ver e ouvir Papete no palco, diz toda faceira: “É boooi! De boi eu gosto, num é, vovó?” É boiera! Luana e Lucas, cariocas: “Vó, bota aí as músicas do Maranhão”. E Inacim, o neto gaúcho, grita: “É lua”! Repito: “Papete, a expressão do sagrado do são João maranhense” (O TEMPO, 24.6.2014).

Papete não é um ilhéu da gema. Nasceu na beira do rio Mearim, em Bacabal (MA), em 8.11.1947. A cosmovisão ilhéu ludovicense impregnou seu jeito de ser e fazer profissional de cantor, compositor e multi-instrumentista: um dos cinco melhores percussionistas do mundo e a maestria inimitável com o berimbau.

Papete declarou: “O são João, para mim, é uma parceria com a minha parte espiritual. Isso, para mim, é um compromisso religioso com a minha infância, de resgate do meu passado, e um encontro com tudo aquilo que acredito. Eu amo a cultura maranhense” (2011).

Com seus dons musicais e suas esmeradas técnicas, Papete tinha estofo para brilhante carreira apartado da produção musical maranhense, porém o senso tolstoiano, já aflorado em “Bandeira de Aço”, bradou: “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia” (Leon Tolstói, 1828-1910).

Tolstoiano, desde 1990, Papete, com sua banda, se dedicou a interpretar músicas do Maranhão, a pesquisar e a divulgar compositores maranhenses, a exemplo do livro “Os Senhores Cantadores: Amos e Poetas do Bumba Meu Boi do Maranhão” (Editora Ipsis, 2015), cuja inspiração foi a solidariedade: “Ao perceber que Coxinho, um dos maiores ícones do bumba meu boi maranhense, morreu pobre e sem receber as honrarias devidas, pensei que devia fazer algo para preservar a memória daqueles que muito fizeram pelo nosso bumba meu boi, e daí veio a ideia para esse projeto”.

Papete é o Maranhão por inteiro, benzido e encruzado: olhos de papel de seda com uma estrela na testa.

* Médica e escritora. É do Conselho Diretor da Comissão de Cidadania e Reprodução e do Conselho da Rede de Saúde das Mulheres Latino-americanas e do Caribe. Indicada ao Prêmio Nobel da paz 2005. Este texto foi publicado originalmente no Portal Vermelho.
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